Perdida na História

Perdida na História

terça-feira, 1 de novembro de 2011

"Malleus Maleficarum"

Em épocas já remotas, facilmente se confundiu a medicina tradicional, os delírios e as mentiras de muitas pessoas com "bruxaria". Um gato ou um galo preto, ervas alucinogénicas, chegar a uma idade demasiado tardia, tudo era motivo para ... caçar bruxas.

      A bruxaria é, à partida uma sobrevivência das religiões pagãs, nas quais os fiéis acreditam conseguir comunicar, por magia, com as forças da natureza. Com o passar dos tempos, à medida que o cristianismo triunfa, o bruxo passa a ser apresentado como tendo "negócios" com o diabo e, a este título, é expulso pela Igreja Católica toda-poderosa. 

      Cerca de 1485 surge o Malleus Maleficarum, ou simplesmente o Martelo das Bruxas, um manual contra os demónios, que rapidamente se torna no livro de mesa de cabeceira de qualquer bom inquisidor.



Uma nova forma de heresia

      Segundo a tradição, o bruxo é aquele que sabe obter, por meios mágicos e inconfessáveis, satisfações tanto morais como materiais. Personagem ambígua, ele é capaz de fazer todo o mal, contudo, é também capaz de curar; é simultaneamente temido e respeitado pelas populações locais rurais que, normalmente, atribuíam grandes virtudes aos filtros que ele fabrica. Porém, a partir do século X, a Igreja Católica vê nele um inimigo que encarna a sobrevivência das práticas da era pré-cristã. Posteriormente, ascende à posição de servidor directo do diabo.
      A partir de 900, a bruxaria é, portanto, denunciada pelo monge Régimon de Prum.
      Já em 1270, surge a Summa de Officio Inquisitonis, ou Tratado do Ofício da Inquisição, que edita as penas a inflingir aos partidários do diabo. 



      Em 1535, Em Toulouse, um processo retumbante teve lugar em frente do tribunal da Inquisição. Sessenta e três homens e mulheres acusados de heresia confessam sob tortura que adoram ao diabo e que guardam a sabbats. A partir desta época, os crimes de heresia e bruxaria passam a estar completamente associados. Um demonólogo da época, Jean Vinetti, no seu Tractatus contra demonum invocatores, ou Tratado contra invocadores do diabo, em 1450, faz entrar explicitamente a bruxaria  no quadro da heresia.

      É sobretudo no século XV que se desenvolve uma violenta repressão da chamada "bruxaria". O próprio papa intervém: Inocêncio III promulga, em 1484, a bula Summis desiderantes, que condena a bruxaria como já o haviam feito as autoridades temporais. A publicação do Malleus Maleficarum inscreve-se neste contexto.



Bruxas, em vez de bruxos

      O Malleus Maleficarum deve-se a dois inquisidores: Heinrich Kraemer e James Sprenger, sendo este último, superior de um mosteiro. O objectivo dos autores é convencer as populações das realidades da bruxaria e dar aos inquisidores um manual e um método para tratar esta fonte gravíssima de heresia.
     A delação e o recurso à tortura são muito importantes. São vitais. Esta última aparece como um meio para arrancar confissões e os tribunais religiosos não são os únicos a utilizar.



     Os autores fazem notar que a bruxaria é notoriamente um fenómeno feminino. Com isto, não fazem mais do que constatar um facto: os processos por bruxaria dizem sobretudo respeito a mulheres - números de que se dispõe actualmente mostram que 1 homem por 4 mulheres é que terá sido julgado por bruxaria. O velho sentimento de misogenia, ou de desconfiança da Igreja relativamente às mulheres, que vê nas filhas de Eva permanentes tentadoras, transparece aqui. A isto, junta-se o temor da sexualidade encarnada pela mulher: as páginas do manual sobre este assunto afirmam de o temor e o desprezo que os dois dominicanos sentiam pelas mulheres.




      O combate à "praga da bruxaria" prossegue em toda a Europa, de forma desigual conforme a época e conforme o país. É na Alemanha que  a luta se mostra mais sangrenta. A violência dos juízes é por vezes tão forte que suscita revoltas e leva mesmo ao assassinato de alguns inquisidores, tais como o fanático Conrad de Marburgo.


Heinrich Kraemer

      O que leva alguém a escrever algo tão tenebroso? Tão cruelmente falso? Kraemer era um inquisidor, não famoso, não espectacular.  É de referir que, certa vez, estava a acusar uma  mulher do crime de bruxaria. Contudo, a mulher insiste que tem direito a um "advogado", o qual após ter conhecimento do caso, a defende de tal forma que Kraemer fica humilhado e perde inexplicavelmente o caso.
      Em 1474 foi indicado como Inquisidor para o Tirol, Salzburgo, Boémia e Morávia. A sua eloquência no púlpito e grande actividade foram motivo de reconhecimento em Roma e era o braço-direito do Arcebispo de Salzburgo.

      Sabe-se actualmente que a maioria do manual, senão todo, terá sido escrita por Kraemer. Porém, Kraemer falhou a sua intenção de obter apoio junto dos principais teólogos da Faculdade de Colónia: condenaram o livro, como violando a ética e os procedimentos legais, bem como tendo inconsistências com a própria doutrina Católica. Kramer alegou que o testemunho de quatro dos professores teria sido forjado.
      A aprovação inserida no início do livro levou à sua popularidade, dando-lhe a impressão de que havia recebido um respaldo oficial. O texto chegou a ser tão popular que rendeu mais cópias do que qualquer outra obra, exceptuando a própria Bíblia, até a publicação d'El Progreso del Peregrino, de John Bunyan, em 1678.
      No final, Kramer acabou por ser ele próprio condenado pela Inquisição em 1490.


O conteúdo

O livro divide-se em três partes, cada parte subdivide-se em capítulos chamados de Questões :

- a primeira ensinava os juízes a reconhecerem as bruxas nos seus múltiplos disfarces e atitudes;
- a segunda descrevia todos os tipos de malefícios, classificando-os e explicando-os;
-a terceira regrava as formalidades para agir “licitamente” contra a bruxaria, demonstrando como inquiri-las e condená-las.



      Curiosamente, o livro foi denunciado pela Inquisição em 1490 e colocado no Index Librorum Prohibitorum (Índice dos Livros Proibidos). Apesar disso, Malleus Maleficarum tornou-se de facto o verdadeiro guia dos perseguidores de bruxas e feiticeiras na Idade Média. Entre os anos de 1487 e 1520, teve 13 edições, e entre 1574 e 1669 teve 16.

Salem

      Em 1692, no Novo Mundo, na costa leste dos USA, a aldeia de Salem é palco de um teatro fantasmagórico: uma gigantesca caça às bruxas. Composta por grandes quintas, a comunidade de Salem pratica um puritanismo rigorosíssimo, preconizando o regresso a um cristianismo primitivo, vivendo sob costumes muito austeros.
      Ora o ano de 1692 não poderia ter sido pior:  raparigas entre os 9 e os 16 anos parecem ter sido afectadas por algo estranho: convulsões, sufocações, surdez e incapacidade de se expressarem. As crianças dizem-se possuídas pelo demónio e denunciam quem o convocou: uma escrava mestiça de nome Titube e duas mulheres velhas de reputação duvidosa, Sarah Good e Sarah Osborn. Outras denúncias seguem-se; os magistrados são convocados:  pronunciam ao todo uma vintena de condenações e são mesmo todos executados. Sabe-se que houve aproveitamento da situação: famílias rivais aproveitaram  para se acusar mutuamente, acabando muitas inocentes por morrer dolorosamente. Anos depois, o juíz afirma ter noção que as acusações não tinham fundamento. 




     Ao todo, morreram milhares de pessoas, inocentes, acusadas de bruxaria. Sob tortura, só não terão confessado aquilo que os inquisidores não quiseram. Muitas vezes, sem qualquer meio de sustento, muitas mulheres afirmavam ter poderes para curar esta e aquela doença, em troca de alimentos ou dinheiro. Afirmações semelhantes ter-lhes-ão custado a vida. Muitas acreditavam, realmente, serem bruxas e terem poderes mágicos. Onde estavam, então, tais poderes aquando da sua tenebrosa execução? Todos estes acontecimentos facilitaram em grande medida a ascensão de uma grande instituição: a Inquisição.



     Uma das coisas mais curiosas da "caça às bruxas" é o facto de se suspeitar sempre de mulheres idosas. Ora a resposta é surpreendente. A esperança média de vida na altura era muito baixa, possivelmente inferior a 50 anos de idade. Assim, para a época,  qual a justificação mais plausível para uma mulher conseguir chegar aos 70 ou 80 anos, a não ser ter um pacto com o diabo?





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