Perdida na História

Perdida na História

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A coroação de Hugo Capeto

Em 987, o rei carolíngio  Luis V morre num acidente de caça: não deixa descendência. Os grandes da Frância Ocidental preferem um rei não Carolíngio, preferem Hugo Capeto, descendente dos Robertianos. O rei é coroado em Noyon a 1 de Junho e sagrado, sem dúvida, a 3 de Julho. Ao personagem falta brilho; o seu breve reinado não é marcado por qualquer feito ilustre. Porém, inicia uma dinastia de 36 soberanos que se sucedem durante 800 anos, segundo as leis do sangue.

"Coroem o duque. É ilustríssimo pelos seus feitos, sua nobreza, suas forças. O trono não é adquirido por direito hereditário; ninguém deveria ser elevado a ele sem se distinguir não apenas pela nobreza do nascimento, mas pela bondade da sua alma."

Arcebispo Adalbarão de Reims

    Quando o último Carolíngio morreu na Alemanha, em 911, os descendentes de Carlos Magno mantiveram-se, não sem ruptura, na Frância Ocidental, até à tomada do poder por Hugo Capeto. 
    Enfraquecido pelas incursões normandas, o seu reino sofre sobretudo de debilidade interna: ao longo dos tempos, os grandes do reino tinham vindo a construir principados autónomos que dominam perfeitamente, no século X, antes de assistirem ao seu esboroamento no século XI, em proveito dos pequenos alcaides. Os últimos carolíngios são reis sem poder: a única base sólida de que dispõem está circunscrita aos vales do Oise e do Aisne.

A irresistível ascensão dos Robertianos

    A linhagem dos Robertianos, à qual Hugo Capeto pertencia, tem origem em Roberto, o Forte, aristocrata da região renana que fora para oeste e a quem Carlos, o Calvo, confia em 852 os condados de Anjou e da Touraine.  De certa forma, considera-se ter sido nomeado para a defesa do Vale do Loire contra os Normandos.




Quem era Hugo Capeto?
     Hugo Capeto era sobrinho-neto e neto, respectivamente, dos carolíngios Odo de Paris e Roberto I, os dois únicos reis dos francos eleitos. O seu sétimo avô por parte de sua avó Beatriz de Vermandois era Carlos Magno. Hugo pertencia então a uma família poderosa e com muitas ligações à nobreza reinante da Europa.
    Quando seu pai, Hugo, o Grande, morreu em 16 de Junho de 956, Hugo Capeto, o mais velho de  três filhos varões, era ainda menor. Foi colocado, juntamente com os seus dois irmãos, sob a tutela do seu tio materno, Bruno, duque de Lorena e arcebispo de Colónia.
    Herdeiro do seu pai, e por isso um dos mais poderosos nobres do reino, tornou-se conde d'Orleães e abade laico das abadias de São Martinho de Tours, Saint-Germain-des-Prés e Saint-Denis. Em 960, o rei Lotário de França concedeu-lhe os títulos que o seu pai detivera: duque dos francos e marquês de Nêustria. Era o nobre mais rico de seu tempo.


Coroação de Capeto

A rivalidade entre dois primos

    Hugo Capeto sucede ao seu pai, em 956: tem 16 anos; o novo rei Lotário, tem 13 anos e é seu primo. Os jovens são colocados sob a tutela dos seus tios germânicos: o rei Otão I e o arcebispo de Colónia, Bruno.
    O facto de serem menores e a ausência de um carácter forte em Hugo Capeto favorecem a decomposição do principado robertiano: antigos vassalos de Hugo, o Grande, o conde de Anjou, o conde de Blois-Chartres, também senhor de Tours, afirmam a sua independência antes de se revelarem os maiores e mais perigosos rivais dos primeiros Capetos.
    Entre Hugo e Lotário multiplicam-se os choques sem vantagem para nenhum: a situação aproveita aos grandes e aos Otonianos da Germânia.

    Mas em 978 Lotário toma uma iniciativa: tenta conquistar esta zona contestada, nascida do Tratado de Verdun, a antiga Lotaríngia, que Otão II então controla. A tentativa provoca a reacção do alemão, que vem acampar para a frente de Paris, cujas muralhas Hugo Capeto defende: Lotário, o penúltimo carolíngio deverá agora contar com a hostilidade do germânico. Quando morre, dois anos depois, a situação não evoluíra. Deixa um filho com 19 anos, que lhe sucede facilmente: trata-se de Luis V que, acidentalmente, morre um ano depois.

Luis V


Hugo Capeto, o reizinho

    Esta estranha morte é a oportunidade de Hugo Capeto: o arcebispo de Reims  e o partido Otoniano estimulam-no, os grandes do reino proclamam-no, visto a sua fraqueza ser a força deles.


Hugo Capeto


    De 978 a 986, Capeto aliou-se aos imperadores germânicos Oto II e Oto III e com o arcebispo Adalbarão de Reims para dominar o fraco rei Lotário. Já em 986, era na prática rei, apesar de não oficialmente.
    O reino em que Hugo viveu era bastante diferente da França actual. Os seus antecessores não eram reis de França, esse título só começaria a ser usado por Filipe, o Belo (1285-1314). O reis usavam o título de rex Francorum (Rei dos Francos) e as terras que governavam eram apenas uma pequena parte do antigo Império Carolíngio.






    O rei é somente senhor de Orleães e de Senlis, embora alguns bispos do Norte lhe tenham permitido estender o seu poder, indirectamente.

    Hugo captura um pretendente carolíngio, Carlos da Baixa Lorena, irmão de Lotário, que lhe é entregue pelo bispo de Laon. Mas o poder real em breve desaparece num conflito com o novo arcebispo de Reims, a quem são atribuídas as culpas de ter protegido o cativo. Contra o conde de Blois, Hugo inaugura uma política que os seus sucessores sistematizarão: exploração territorial e jogos de equilíbrio entre principados rivais. Homem de virtudes administrativas, Hugo Capeto não granjeou o poder por simples simpatias, mas sim por astúcia e  suborno.

Hugo Capeto


    Durante um século e meio, o poder real sobrevive. Mas os reis sucedem-se, de pai para filho: com o tempo, a continuidade familiar faz esquecer a origem do poder: uma usurpação.

O complexo de usurpação

    Durante dois séculos, a dinastia dos Capetos preocupa-se em assegurar o poder: o pai faz coroar o filho ainda em vida e associa-o ao reino; a propaganda real embeleza os acontecimentos de 987, imaginando uma associação ou parentesco com os Carolíngios.
    Estas práticas cessam a partir de Filipe Augusto (rei de 1180 a 1223), descendente, por sua mãe, dos Carolíngios e que pode, finalmente, reclamar legitimidade.

Eliminar mulheres.

    No século XIV, o contexto político obriga a formular a doutrina oficial de sucessão ao trono. Impõe-se, então, a regra de afastar as mulheres do trono, assim como da transmissão do trono. A pretensa "lei sálica" (remontaria aos Francos Sálicos), que acaba por se converter numa lei fundamental do reino, é formulada no tempo de Carlos V (rei de 1364 a 1380).

     Mas muitas crises anteriores impõe o seu princípio. A primeira estala em 1316, na morte de Luis X. Nasce-lhe um filho póstumo, João, que morre em cinco dias. Fica uma filha menor, Joana, rapidamente afastada pelo tio paterno, mas tarde Filipe V.

     Curiosamente, o precedente vira-se contra as filhas de Filipe V, a favor de de Carlos IV, irmão de Luis X. Este como deixa apenas uma filha, leva a uma grande encruzilhada: não resta ninguém, nenhum descendente directo de Hugo Capeto. Graças ao apoio dos barões, um Valois (descendente por via masculina de filhos segundos dos Capetos), impõe-se sob o nome de Filipe VI (1328-1350). O rei de Inglaterra, Eduardo III, é rejeitado visto o seu antecessor capetiano ser faminino. É um pretexto para a Guerra dos Cem Anos.         

Capeto?

    Existem várias hipóteses para explicar  Capeto, que serviu para distinguir Hugo do pai. A etimologia popular segue a explicação de ser o rei da capa (chappet), uma vez que antes de ser rei já era abade, e os abades da época usavam uma capa característica (em português: capelo, que por motivos semelhantes foi o cognome do rei Sancho II de Portugal).

    Outras etimologias derivam dos termos para chefe (caput), zombador (capetus) ou cabeça grande (capillo). Pensa-se também que o cognome do seu pai foi atribuído após a sua morte, a partir do latim Hugo Magnus, Hugo o Velho, sendo o seu filho Hugo, o Novo, e podendo Capeto ser uma invenção do século XII.

Hugo Capeto e o Futuro

    Os capetianos directos, ou a Casa de Capeto, governaram a França desde 987 a 1328. Depois, o reino foi regido por ramos colaterais da dinastia.
    De facto, todos os reis franceses até Luís Filipe, assim como os pretendentes ao trono desde então, foram membros dessa família (excepto a Casa de Bonaparte, imperadores e não reis).



    De salientar que D. Pedro I e D. Pedro II, ambos Imperadores do Brasil, eram descendentes em linha masculina directa de Hugo Capeto, fazendo parte também da dinastia capetiana.

    Actualmente, esta dinastia ainda faz parte da árvore genealógica do reino da Espanha e do ducado do Luxemburgo, sendo a mais antiga dinastia no poder monárquico da Europa, e a segunda mais antiga do mundo, depois da família imperial do Japão, com a linhagem documentada, pelo menos, até ao ano 706.

Fonte:
Astier et al, (2000), Memória do Mundo, Cículo de Leitores

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Sinatra, Máfia e Política


    Francis Albert Sinatra nasceu em 1915 em Hoboken, actuando quer em filmes, quer fazendo uma famosíssima carreira na música. Aliás, é considerado uma das maiores vozes do século XX, com mais de 50 anos de carreira. Lançou centenas de canções, actualmente imortais, como Killing Me Softly, Strangers in the Night, New York, New York, My Way, Fly Me to the Moon, entre outras. Já no que diz respeito ao cinema, Sinatra aparece em mais de 50 filmes, todos estreados entre 1941 e 1990, tendo mesmo sido nomeado duas vezes para os prémios Óscar.


     Tudo isto consta nas biografias oficiais de Sinatra. O que não é tão falado é o facto de Sinatra ser descendente de italianos. E ter tido ligações à Máfia.

Ligações estranhas.
    Durante quarenta anos, o FBI, a polícia federal dos Estados Unidos, pesquisou arduamente a vida de Sinatra, com o intuito de apurar se encaixava dentro dos seus inimigos máximos: o comunismo e a Máfia.
    Apesar de centenas de documentos, nenhum documento terá chegado aos dias de hoje com a prova inequívoca de que Sinatra pertencia à organização Máfia e quanto ao comunismo, parece ser uma suspeita absurda. De facto, existem centenas de indícios, devido aos amigos suspeitos, de Sinatra ter uma grande ligação ao mundo do crime mafioso, contudo, ou os documentos foram destruídos, ou nunca chegaram a ser guardados. O que é certo é que desde criança, Sinatra cresceu rodeado de uma esfera italiana, no meio da qual continuou a circular mesmo depois de ser famoso, que se veio a provar pouco aconselhável.

O início do interesse
    Como começa o FBI a ter interesse em alguém tão saliente no mundo do espectáculo? Tudo começa décadas antes. Frank Sinatra esteve preso por comportamento impróprio com uma rapariga, essa acusação foi retirada e o famoso cantor estava de novo livre.


    Porém, Sinatra salta para a ribalta do FBI através de uma carta anónima, que pouco teve de anónima, visto se saber ter sido escrita por um colunista social famoso na época, Walter Winchell. A carta era peremptória: afirmava que o cantor teria pago 40.000 dólares para se livrar do serviço militar. O FBI ficou com dúvidas. Ao investigar, percebeu-se que tal não era verdade: ao investigar a sua ficha médica, descobriu que a estrela escapou do Exército (e da frente de combate na II Guerra) por ter o tímpano perfurado e sofrer de "instabilidade mental". Sinatra, já famoso e assediado por fãs histéricas, declarou "ser neurótico, ter medo de multidões e vontade de correr quando se vê cercado de pessoas".



    Porém, não foi este episódio que mais terá interessado o FBI. Umas certas ajudas financeiras a campanhas que cheiravam a comunismo, como a "Cruzada americana pelo fim dos linchamentos" saltou muito mais à vista do FBI. A polícia não descansou. Investigou profundamente, tão a fundo que em 1950 Sinatra envia um sinal de patriotismo: oferece os seus préstimos para espiar os seus colegas, quer actores, quer cantores, para o FBI. A oferta foi, aparentemente, recusada.


     Se Sinatra se consegue livrar da suspeita de ser comunista, não é com tanta facilidade que se livra das investigações relacionadas com a Máfia.
     Aquando da sua morte, ao aceder-se aos ficheiros do FBI, contou-se várias fotografias do cantor com vários indivíduos explicitamente ligados à Máfia, bem como vários registos de viagens e festas com Sam Giancana e outros chefes da Máfia.
Sam Giancana

     Gilorma Salvatore Giancana, ou Sam Giancana, foi o sucessor de Paul Ricca, em 1957, na direcção da Máfia de Chicago, cargo esse que segue até ao fim da sua vida, em 1975. È de vital importância referir que é a Sam Giancana que se atribui a responsabilidade pelo “suícidio” de Marilyn Monroe (curiosamente, juntamente com a CIA), assim como terá sido um dos cérebros por trás dos assassinatos de Robert F. Kennedy e John F. Kennedy.

O mundo do crime
    O envolvimento de Sinatra com a Máfia parecia ser óbvio: suspeitava-se de contrabando de dinheiro e tentativas de extorsão.  A polícia tem vários informantes. Um deles afirma sem qualquer dúvida:
"Tudo o que Sinatra faz tem o dedo de Giancana"
    Tendo em conta os altos cargos dentro da Máfia com que Sinatra lidava, não admira a dificuldade e o evidente insucesso do FBI em acusar e levar à detenção de Sinatra. Na década de 80, com o presidente Hoover morto e o próprio FBI reformulado, Sinatra era um astro consagrado como lenda em todo o planeta: o arquivo foi encerrado.


    À parte aquilo que é oficial, sabe-se que Frank Sinatra teria certa vez agido como mensageiro da Máfia, tendo escapado por pouco de ser preso, visto estar a carregar uma mala com 3,5 milhões de dólares, em dinheiro vivo. A informação foi transmitida pelo comediante Jerry Lewis, que terá sido colega de Sinatra, aos autores de um livro novo que visa contar a verdadeira história do astro.
    De acordo com Lewis, Frank Sinatra estava a passar pela alfândega com uma mala que continha "três milhões e meio em notas de cinquenta", quando agentes da alfândega abriram a mala. Contudo, se Sinatra teria ou não medo da multidão, como afirmou no passado, terá sido esta a salvá-lo: em função da multidão que se acotovelava para ter um vislumbre do artista, os agentes desistiram da revista.
"Senão", disse Lewis, "nunca mais teríamos ouvido falar em Sinatra".
   
Amigos, amigos…
    Documentos do FBI também demonstram que Sinatra teria tido ligação com o mafioso Lucky Luciano, durante viagem que fez a Cuba em 1947 e que, no início de sua via como cantor, tenha recebido o apoio de um mafioso chamado Willie Moretti, de Nova Jersey.
Frank Sinatra com individuos ligados à máfia

    Aliás, o incidente com a mala terá ocorrido pouco depois de Lucky Luciano ter sido deportado dos Estados Unidos para a Itália, em 1946.

Frank Sinatra com individuos do mundo da Máfia, nomeadamente Giancana, segundo a contar da direita.

    - Quando a polícia de Nápoles faz uma busca à casa de Luciano, encontra uma caixa dourada com a inscrição: "Para o meu querido amigo Lucky, do seu amigo Frank Sinatra"
    - Sam Giancana usava um anel com uma safira rosa, uma prenda de Sinatra.
    - Várias gravações não autorizadas, levadas a cabo pela polícia, gravam conversas da máfia onde Sinatra é um nome corrente.  

Política, Máfia e Sinatra
    Tudo poderia não passar de suposições. Contudo, declarações de  Tina Sinatra, filha do cantor norte-americano Frank Sinatra, durante a gravação do programa «60 Minutes», da CBS, asseguram que todas as suspeitas do passado, tinham fundamento. A filha confirma que
O pai pediu a um dos chefes da mafia para ajudar John F. Kennedy a ganhar as eleições presidenciais dos EUA em 1960”.
O meu pai era moço de recados”, acrescentou.


    Desta forma, confirma-se algo que nunca pôde ser provado antes: Frank Sinatra pediu a um dos chefes da máfia para ajudar John F. Kennedy a ganhar as eleições presidenciais dos EUA em 1960.
    O meu pai era moço de recados proferiu Tina, acrescentando que Frank Sinatra terá falado com Sam Giancana a pedido de Joseph Kennedy.

    O facto que fica para a História é que John Kennedy derrotou Hubert Humphrey nas primárias da Virgínia, o que garantiu a candidatura pelo Partido Democrata.

Porém, as declarações de Tina não ficam por aqui:
"O pai estava ligado à Máfia pois eles empregaram-no por mais de 20 anos da sua vida, ou mais; eles ajudaram-no a começar, tal como ajudaram Dean [ Dean Martin] e Bing [ Bing Crosby]a começar ".

Surpreendente foram mesmo as seguintes declarações  de Tina:
"Provavelmente nós demos à Máfia um rótulo de maus da fita, quando na maioria das vezes eram um bando de  pessoas fixes. Só aqueles que mataram é que levaram as coisas um pouco longe de mais. A ideia de serem todos uns assassinos a sangue - frio está errada" (estará????)


Política, Máfia, Sinatra  e Marilyn Monroe
    “Frank Sinatra and Marilyn Monroe named in Mafia 'sex parties' plot to smear Kennedys, FBI file reveals”. O tema faz manchete no jornal dailymail, após a descoberta de documentos do FBI relacionados com a família Kennedy.


    Os três irmãos Kennedy são acusados de participar em “sex parties”, juntamente com Marilyn Monroe e os membros do grupo Rat Pack (grupo de artistas extremamente populares, onde figurava Sinatra), segundo arquivos recentemente vindos a público do FBI.



Frank Sinatra com Marilyn Monroe e outros amigos
    Um informante do FBI dentro da máfia revela que a organização usa mulheres “fornecidas” pelo Rat Pack, nomeadamente Monroe, para atrapalhar os irmãos Kennedy. Segundo o informante, nestas festas participavam todos os irmãos, tendo sido vista, pelo menos uma vez Patricia Kennedy, irmã dos Kennedy e esposa do actor Lawford, um próspero actor de Hollywood que, como não poderia deixar de ser, estava também ele em todas as festas.

Sinatra e Monroe


    A famosa actuação de Monroe com o seu “Happy Birthday Mr.President” foi perfeita. Apesar de a actriz estar extremamente perturbada nessa actuação, muitissimo doente, deprimida e possivelmente sedada, a actuação não poderia ter sido melhor:  foi interpretada com uma conotação sensual. No dia seguinte, corre em todos os jornais que o Presidente terá dormido naquela noite com a actriz. Pensa-se, a ser verdade, que terá sido a última vez que aquele Kennedy terá visto a actriz com vida.



    Na manhã de 5 de agosto de 1962, aos 36 anos, Marilyn é encontrada morta, em casa, deitada na cama. O relatório oficial regista que morreu de overdose. Voltando à noite anterior, os vizinhos relatam terem ouvido um helicóptero. Uma ambulância já estava parada, à espera, fora da casa da estrela, mesmo antes da empregada a descobrir morta.


    Todas as gravações dela com o psicanalista são parcialmente destruídas. Actualmente, o relatório da autópsia, não existe.

    O informante "confiável" revelou que a máfia queria manchar Robert Kennedy por causa da sua guerra contra o crime organizado quando era procurador-geral dos EUA, entre 1961 e 1964. A Máfia não lhe perdoava e Kennedy, inexplicavelmente, em vez de se afastar, cada vez mais se enredava numa teia, estranha e sem fim.

Rat Pack e Giancana

Quanto a Sinatra, todos o conhecem como o "Senhor da Voz", um verdadeiro astro a nível mundial. Ninguém parece incomodado por estarem a falar de um possível elo da Máfia.


"O Padrinho"
   O êxito internacional "O Padrinho", quer em livro, quer em filme, terá também utilizado Frank Sinatra para a criação de um personagem. De facto, Mario Puzzo criou Johnny Fontane, o personagem que sobe na vida artística à custa da sua ligação com o Padrinho, com base na vida de Frank Sinatra. Não parecem ser só meras coincidências, pois ao longo da história aquilo que sucede a Johnny em tudo se assemelha ao ocorrido a Sinatra na vida real, com uma ou outra pequena nuance. De facto, até o problema nas cordas vocais que afecta Johnny é em tudo semelhante ao que sucedeu a Sinatra.

    Conhecendo o franco poder de Sinatra em Hollywood, o filme é feito em 1972, tendo-se especial cuidado com as cenas protagonizadas por Fontane, de forma a que tudo não passasse de meras coincidências. Desta forma, Mario Puzzo nunca assumiu as coincidências entre o seu personagem e Sinatra, assim como o próprio Sinatra teve oportunidade de negar qualquer semelhança. Podem ser apenas coincidências. Podem não ser.

Cena do filme "O Padrinho", onde o Padrinho fala com Johnny Fontane, personagem inspirada e criada à imagem de Frank Sinatra

Consultar, para mais informações:

Fontes:





quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Richelieu, o cardeal

A 29 de Abril de 1624, Armand Jean du Plessis, cardeal de Richelieu, toma lugar no Conselho do rei Luis XIII, assegurando o governo do Reino. Cerca de três meses depois, converte-se no chefe: assim permanecerá até à morte, com o título de ministro principal. O seu sucesso é o de um lutador obstinado.


O Destino


    Desde o início Richelieu tem de combater o destino. Como todos os nobres, sonha em criança com cavalgadas, proezas guerreiras e glória. Mas, órfão constrangido a assegurar à família os subsídios de um cargo eclesiástico, ingressa na vida religiosa: em 1606, com 24 anos, este parisiense apenas conhece a miséria e a lama de Luçon, um obscuro arcebispado do Poiton.
    Porém, o excepcional valor deste bispo "contrafeito" sensibiliza Maria de Médicis - regente todo-poderosa de França, depois do assassinato do marido Henrique IV, em 1610- durante a assembleia dos estados gerais de 1614, onde é delegado. O jovem entra para o seu serviço, torna-se seu capelão e um dos seus homens de confiança. Obtém o secretariado de Estado de Guerra e dos Negócios Estangeiros... Mas cai em desgraça após o assassinato do favorito da rainha-mãe, Concini. De facto, terá sido o filho de Maria de Médicis quem terá mandado matar Concini. Quanto a Richelieu, tem de empenhar toda a sua paciência para negociar a reconciliação do então rei Luis XIII e de sua mãe e reconquistar o seu lugar na corte: em 1624 este capítulo encerra-se quando é chamado ao Conselho - à excepção do título de cardeal que conseguira dois anos antes, parte do zero nesse ano.






Primeiras audácias

    Para Richelieu, só o poder do rei e a grandeza da França contam. Esta suprema "razão de Estado" anula princípios e contradições. Uma vez que o confronto com a Espanha, a grande potência da época que pretende defender o catolicismo, é inevitável, Richelieu não vê qualquer inconveniente, para vencê-la, em aliar-se aos soberanos protestantes, embora ele próprio seja um alto dignitário católico.
    Se os protestantes estrangeiros servem para a sua política, os protestantes habitantes do reino são considerados pragas e uma ameaça intolerável de agitação e divisão.

    Embora usando tal como eles a barba em ponta, Richelieu julga os nobres igualmente perigosos. Em 1627, pela 1ª vez na história da França, manda condenar à morte dois nobres por se terem batido em duelo, desprezando as leis do reino. Mas desconfia sobretudo das conspirações do grandes...cuja susceptibilidade é atiçada pelos agentes secretos espanhóis, pela rainha mãe e até por Gastão de Orleães, irmão do rei, francamente invejoso do poder de Richelieu.



    Só em finais de 1630, a 10 de Novembro, é que o melancólico rei decide afastar a mãe e só nesse momento Richelieu consegue, enfim, impor-se verdadeiramente. Efectivamente, Richelieu não fica satisfeito com o mero afastamento da rainha, promove e leva também a cabo o exílio de todos os apoiantes da rainha.


Homem de ferro


    Em 1631 começa a guerra aberta contra a Espanha, no quadro que assola a Europa: a Guerra dos Trinta Anos. O início é desastroso e as despesas megalómanas.  Os impostos são aumentados enormemente. Para justificar estes sacrifícios, Richelieu incentiva o médico protestante Teofrasto Renaudot a criar o primeiro jornal francês, La Gazette , que virá a apresentar os acontecimentos do dia, mas de acordo com o que mais lhe convém.
   


    Em 1635, funda também a Academia Francesa, de forma a ter sempre à sua disposição escritores e pensadores que o defendam.    
    Porém, os camponeses sobre quem recaem os pesadíssimos impostos não lêem as suas obras, nem os seus jornais. Miseráveis, armados de forquilhas e paus, revoltam-se. Richelieu responde com uma repressão muito violenta e muito sangrenta. Com a mesma brutalidade, enfrenta as revoltas dos grandes, por detrás dos quais se encontra sempre Gastão de Orleães: até o favorito do rei acaba decapitado.


 
Obra positiva

    Além de destruir, Richelieu foi também capaz de contruir. Dotou a França da sua primeira marinha de guerra, lançou as bases do império colonial: começa a povoar o Canadá, onde atribuem o seu nome a um afluente do rio São Lourenço, fundam-se colónias no Senegal e em Madagáscar. Começa a tomar-se o gosto dos produtos vindos das Américas, desde o tabaco até à cana de açúcar.



    Este homem de vontade indomável, que dorme pouco e trabalha muitíssimo, acaba por encontrar tempo para a sua glória pessoal, ao mesmo tempo que se ocupa dos bens do Estado. Manda construir em Paris um magnífico palácio (futuro Palais - Royal) e readquire, na província, a terra de Richelieu que a sua família tivera de vender, edificando aí uma cidade modelo. Curiosamente, Richelieu ficou também conhecido por cortejar as damas da Corte, algo pouco vulgar.

Fim.

    Em 1643, o cardeal cede ao seu último destino. Durante toda a sua vida o seu grande corpo, nervoso e seco, atormentou-o com febres, dores e infecções. Nos últimos anos já não consegue montar a cavalo, nem tão pouco suportar os balanços de um carro. Percorre o reino deitado numa liteira transportada por vinte e quatro homens que se revezam. O anúncio da sua morte não provoca qualquer lágrima: nos campos, acedem-se fogueiras e só se ouvem gritos de alegria.

    A este ministro detestado, só se associa o medo e a miséria. Contudo, foi graças a ele que a França se tornou numa enorme potência.

    De acordo com vários historiadores, os seus escritos e pensamentos políticos são comparáveis ao filósofo italiano Nicolau Maquiavel.

Fonte: Astier et al, (2000), Memória do Mundo, Cículo de Leitores

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Uma origem sem consenso

Possivelmente, não existe quem não diga esta palavra. Provavelmente, deve ser a mais pronunciada em todo o mundo. No entanto, a sua origem não reúne consenso, continuando até aos dias de hoje como um verdadeiro mistério: ninguém sabe como surgiu verdadeiramente o... OK.

Ter-se-á tornado comum a partir dos meados do século XIX, nos USA; porém, a sua origem continua incerta. Segundo os dicionários Oxford (publicados pela Oxford University Press), há diversas origens possíveis, desde raízes escocesas, gregas, francesas ou até ameríndias (da nação norte-americana Choctaw) para esta palavra.



Eleição de um presidente

O termo OK, poderá ter surgido no século XVIII, na campanha para a reeleição do Presidente Martin Van Buren (1782-1862) nos USA. A sua alcunha era Old Kinderhook (ele nasceu em Kinderhook, Estado de Nova York) e, em 1840, as iniciais OK ter-se-ão popularizado imenso, de tal forma que utilizou na campanha que, "com Old Kinderhook como presidente tudo estaria óptimo". De forma humorística, também se dizia que OK era sigla para “orl korrect” – all correct -, ou seja, “tudo correto”.



A Guerra

Po outro lado, pode ter tido origem na  Guerra Civil dos Estados Unidos da América : quando não havia nenhuma baixa nos campos de batalha, anotava-se 0 killed (nenhum morto) que, abreviadamente, corresponde a 0K. Este mesmo sistema terá sido usado também durante a Guerra do Vietnam, tornando-se sinónimo de algo bom: afinal, não se registaram vítimas no combate.




Segundo o site: http://pt.wikipedia.org/wiki/OK, existem muitas outras origens para esta palavra, passando a citar:

Origem alemã

origem da palavra é muito discutida. Muitosacreditam que é uma deformação da expressão All Correct (por "Oll Korrekt"), que quer dizer "tudo está correto", cuja origem provavelmente remonta à expressão Olles kloer do baixo alemão.

Origem Indígena norte-americana

Também se coloca a questão de poder provir de okeh, que na língua nativa americana Choctaw significava "sim".



Origem grega

Igualmente, alguns consideram que O.K. são as iniciais da expressão grega Ola Kala, que,mais uma vez, significa "tudo está bem".

Origem afro-americana

Outras teorias, menos comuns, indicam que OK pode ter uma origem africana e que foi trazida para os EUA pelos escravos provenientes daquele continente, o que deriva da forma de afirmação latina hoc ille ou do occitano oc que significa "sim".


Origem durante a época da escravatura nos EUA

Outra teoria afirma que na época da escravatura, nos USA, quando nos campos de algodão do sul, os escravos apresentavam-se com o seu carregamento diante do capataz. Este dava-lhes em francês (muitas regiões do sul dos EUA falavam francês na época) o visto favorável com a expressão "Au quai" que significa "ao cais (de carga)", dito pelos não-franceses como Oll Kway.

Origem no "zero absoluto"

Considerando a temperatura zero kelvin (zero absoluto), que corresponde a -273,15°C, tem-se como simbologia 0 K; neste caso, as moléculas possuem um grau de agitação mínimo, praticamente sem contacto entre si, desta forma, a palavra OK poderá vir desta comparação com um estado de tranquilidade.

Talvez um dia se chegue a um consenso. Talvez um dia se venha efectivamente a saber o que significa OK...

Fontes:
http://www.englishexperts.com.br/2007/01/18/a-origem-da-sigla-ok/
http://pt.wikipedia.org/wiki/OK

terça-feira, 1 de novembro de 2011

"Malleus Maleficarum"

Em épocas já remotas, facilmente se confundiu a medicina tradicional, os delírios e as mentiras de muitas pessoas com "bruxaria". Um gato ou um galo preto, ervas alucinogénicas, chegar a uma idade demasiado tardia, tudo era motivo para ... caçar bruxas.

      A bruxaria é, à partida uma sobrevivência das religiões pagãs, nas quais os fiéis acreditam conseguir comunicar, por magia, com as forças da natureza. Com o passar dos tempos, à medida que o cristianismo triunfa, o bruxo passa a ser apresentado como tendo "negócios" com o diabo e, a este título, é expulso pela Igreja Católica toda-poderosa. 

      Cerca de 1485 surge o Malleus Maleficarum, ou simplesmente o Martelo das Bruxas, um manual contra os demónios, que rapidamente se torna no livro de mesa de cabeceira de qualquer bom inquisidor.



Uma nova forma de heresia

      Segundo a tradição, o bruxo é aquele que sabe obter, por meios mágicos e inconfessáveis, satisfações tanto morais como materiais. Personagem ambígua, ele é capaz de fazer todo o mal, contudo, é também capaz de curar; é simultaneamente temido e respeitado pelas populações locais rurais que, normalmente, atribuíam grandes virtudes aos filtros que ele fabrica. Porém, a partir do século X, a Igreja Católica vê nele um inimigo que encarna a sobrevivência das práticas da era pré-cristã. Posteriormente, ascende à posição de servidor directo do diabo.
      A partir de 900, a bruxaria é, portanto, denunciada pelo monge Régimon de Prum.
      Já em 1270, surge a Summa de Officio Inquisitonis, ou Tratado do Ofício da Inquisição, que edita as penas a inflingir aos partidários do diabo. 



      Em 1535, Em Toulouse, um processo retumbante teve lugar em frente do tribunal da Inquisição. Sessenta e três homens e mulheres acusados de heresia confessam sob tortura que adoram ao diabo e que guardam a sabbats. A partir desta época, os crimes de heresia e bruxaria passam a estar completamente associados. Um demonólogo da época, Jean Vinetti, no seu Tractatus contra demonum invocatores, ou Tratado contra invocadores do diabo, em 1450, faz entrar explicitamente a bruxaria  no quadro da heresia.

      É sobretudo no século XV que se desenvolve uma violenta repressão da chamada "bruxaria". O próprio papa intervém: Inocêncio III promulga, em 1484, a bula Summis desiderantes, que condena a bruxaria como já o haviam feito as autoridades temporais. A publicação do Malleus Maleficarum inscreve-se neste contexto.



Bruxas, em vez de bruxos

      O Malleus Maleficarum deve-se a dois inquisidores: Heinrich Kraemer e James Sprenger, sendo este último, superior de um mosteiro. O objectivo dos autores é convencer as populações das realidades da bruxaria e dar aos inquisidores um manual e um método para tratar esta fonte gravíssima de heresia.
     A delação e o recurso à tortura são muito importantes. São vitais. Esta última aparece como um meio para arrancar confissões e os tribunais religiosos não são os únicos a utilizar.



     Os autores fazem notar que a bruxaria é notoriamente um fenómeno feminino. Com isto, não fazem mais do que constatar um facto: os processos por bruxaria dizem sobretudo respeito a mulheres - números de que se dispõe actualmente mostram que 1 homem por 4 mulheres é que terá sido julgado por bruxaria. O velho sentimento de misogenia, ou de desconfiança da Igreja relativamente às mulheres, que vê nas filhas de Eva permanentes tentadoras, transparece aqui. A isto, junta-se o temor da sexualidade encarnada pela mulher: as páginas do manual sobre este assunto afirmam de o temor e o desprezo que os dois dominicanos sentiam pelas mulheres.




      O combate à "praga da bruxaria" prossegue em toda a Europa, de forma desigual conforme a época e conforme o país. É na Alemanha que  a luta se mostra mais sangrenta. A violência dos juízes é por vezes tão forte que suscita revoltas e leva mesmo ao assassinato de alguns inquisidores, tais como o fanático Conrad de Marburgo.


Heinrich Kraemer

      O que leva alguém a escrever algo tão tenebroso? Tão cruelmente falso? Kraemer era um inquisidor, não famoso, não espectacular.  É de referir que, certa vez, estava a acusar uma  mulher do crime de bruxaria. Contudo, a mulher insiste que tem direito a um "advogado", o qual após ter conhecimento do caso, a defende de tal forma que Kraemer fica humilhado e perde inexplicavelmente o caso.
      Em 1474 foi indicado como Inquisidor para o Tirol, Salzburgo, Boémia e Morávia. A sua eloquência no púlpito e grande actividade foram motivo de reconhecimento em Roma e era o braço-direito do Arcebispo de Salzburgo.

      Sabe-se actualmente que a maioria do manual, senão todo, terá sido escrita por Kraemer. Porém, Kraemer falhou a sua intenção de obter apoio junto dos principais teólogos da Faculdade de Colónia: condenaram o livro, como violando a ética e os procedimentos legais, bem como tendo inconsistências com a própria doutrina Católica. Kramer alegou que o testemunho de quatro dos professores teria sido forjado.
      A aprovação inserida no início do livro levou à sua popularidade, dando-lhe a impressão de que havia recebido um respaldo oficial. O texto chegou a ser tão popular que rendeu mais cópias do que qualquer outra obra, exceptuando a própria Bíblia, até a publicação d'El Progreso del Peregrino, de John Bunyan, em 1678.
      No final, Kramer acabou por ser ele próprio condenado pela Inquisição em 1490.


O conteúdo

O livro divide-se em três partes, cada parte subdivide-se em capítulos chamados de Questões :

- a primeira ensinava os juízes a reconhecerem as bruxas nos seus múltiplos disfarces e atitudes;
- a segunda descrevia todos os tipos de malefícios, classificando-os e explicando-os;
-a terceira regrava as formalidades para agir “licitamente” contra a bruxaria, demonstrando como inquiri-las e condená-las.



      Curiosamente, o livro foi denunciado pela Inquisição em 1490 e colocado no Index Librorum Prohibitorum (Índice dos Livros Proibidos). Apesar disso, Malleus Maleficarum tornou-se de facto o verdadeiro guia dos perseguidores de bruxas e feiticeiras na Idade Média. Entre os anos de 1487 e 1520, teve 13 edições, e entre 1574 e 1669 teve 16.

Salem

      Em 1692, no Novo Mundo, na costa leste dos USA, a aldeia de Salem é palco de um teatro fantasmagórico: uma gigantesca caça às bruxas. Composta por grandes quintas, a comunidade de Salem pratica um puritanismo rigorosíssimo, preconizando o regresso a um cristianismo primitivo, vivendo sob costumes muito austeros.
      Ora o ano de 1692 não poderia ter sido pior:  raparigas entre os 9 e os 16 anos parecem ter sido afectadas por algo estranho: convulsões, sufocações, surdez e incapacidade de se expressarem. As crianças dizem-se possuídas pelo demónio e denunciam quem o convocou: uma escrava mestiça de nome Titube e duas mulheres velhas de reputação duvidosa, Sarah Good e Sarah Osborn. Outras denúncias seguem-se; os magistrados são convocados:  pronunciam ao todo uma vintena de condenações e são mesmo todos executados. Sabe-se que houve aproveitamento da situação: famílias rivais aproveitaram  para se acusar mutuamente, acabando muitas inocentes por morrer dolorosamente. Anos depois, o juíz afirma ter noção que as acusações não tinham fundamento. 




     Ao todo, morreram milhares de pessoas, inocentes, acusadas de bruxaria. Sob tortura, só não terão confessado aquilo que os inquisidores não quiseram. Muitas vezes, sem qualquer meio de sustento, muitas mulheres afirmavam ter poderes para curar esta e aquela doença, em troca de alimentos ou dinheiro. Afirmações semelhantes ter-lhes-ão custado a vida. Muitas acreditavam, realmente, serem bruxas e terem poderes mágicos. Onde estavam, então, tais poderes aquando da sua tenebrosa execução? Todos estes acontecimentos facilitaram em grande medida a ascensão de uma grande instituição: a Inquisição.



     Uma das coisas mais curiosas da "caça às bruxas" é o facto de se suspeitar sempre de mulheres idosas. Ora a resposta é surpreendente. A esperança média de vida na altura era muito baixa, possivelmente inferior a 50 anos de idade. Assim, para a época,  qual a justificação mais plausível para uma mulher conseguir chegar aos 70 ou 80 anos, a não ser ter um pacto com o diabo?