Perdida na História

Perdida na História

sábado, 27 de maio de 2017

Augusta Emerita

Fundada no ano 25a.C por ordem do Imperador Romano Octavio Augusto, a fundação da cidade Emerita Augusta, actual Mérida (Extremadura, Espanha) teve como principal objectivo o acolhimento de soldados das guerras "Cántabras", veteranos das legiões V Alaudae e X Gemina. 

     Segundo documentação e vestigios ainda hoje existentes, esta cidade teve uma importante muralha, sendo o Teatro, o Anfiteatro e o Circo, a parte dos Fóruns e templos, o centro da vida nesta tão antiga cidade. Dever-se-á fazer também menção à importante e ainda hoje utilizada ponte romana no rio Guadiana.


      A chegada dos Visiogodos não diminui em nada a importância desta cidade, sendo a presença árabe apontada como a responsável pelo declive da sua importância. Efectivamente, esta situação manteve-se practicamente até ao século XX, sendo que no ano 1993 esta importante cidade passa a ser considerada Património da Humanidade pela Unesco.

    Tive o prazer de visitar esta bela cidade e aqui vos deixo fotos de alguns dos preciosos monumentos e ruínas que tive a oportunidade de visitar. Aconselho vivamente a visitá-la.
Teatro de Mérida:






Casa do Mitreo e Columbario:





Templo de Diana:




Arco de Trajano:


Forum Romano:



Aqueduto dos Milagres:


Circo Romano:


Alcazaba:




Ponte Romana:


Anfiteatro Romano de Mérida:



Fonte: http://merida.es/breve-historia/
http://turismomerida.org/que-ver/columbarios
http://turismoextremadura.com/viajar/turismo/es/explora/Casa-del-Mitreo/

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Um caso de maternidade com 900 anos

Publico aqui uma investigação levada a cabo pelo Grupo de Genética Forense e Genética de Populações, onde através de 4 amostras, fomos capazes de determinar o grau de parentesco entre um feto e um individuo adulto.

     Em Uceda, Guadalajara (Espanha) encontrou-se enterrado numa tumba simples, datada entre os séculos XII-XII, os restos cadavéricos de um individuo adulto, possivelmente do sexo feminino (foto 1). Junto ao seu abdómen foram também encontrados restos ósseos que, inicialmente, não foi possível determinar a sua origem dadas as suas reduzidas dimensões. Após descartar a hipótese de serem amostras de origem animal, a equipa de arqueólogos coloca pela primeira vez a hipótese de serem amostras fetais. 




Foto 1 - Individuo adulto, onde se podem observar no seu abdómen evidências ósseas de reduzidas dimensões.


     Levantou-se então a questão da possível relação de parentesco entre os dois indivíduos: seria uma relação mãe-filho/a ou tratar-se-ia de um caso de dois enterramentos não simultâneos, não existindo nenhum vínculo biológico entre os indivíduos?

     No Laboratório de Genética Forense e Genética de Populações conseguimos determinar com sucesso a relação entre os dois indivíduos como sendo de maternidade, através da análise de DNA mitocondrial, assim como de análise de marcadores autossómicos. Na foto 2 e 3 podem-se encontrar as amostras analisadas tanto do individuo adulto como do feto. 


Foto 2 - Amostras recolhidas do individuo adulto, dois dentes em boas condições, sem fissuras, sem cáries.



Foto 3 - Amostras recolhidas do presumível feto, uma possível vértebra e um osso indeterminado

Por último, foi também possível determinar o sexo biológico do feto e do individuo adulto. Este último confirmou-se a hipótese antropológica prévia, tratando-se de um individuo do sexo feminino. Quanto ao feto, apesar do elevado estado de degradação das amostras, conseguimos identificá-lo como sendo do sexo masculino. 

A investigação foi publicada e poder-se-á encontrar no seguinte link: http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1875176815301232














domingo, 24 de janeiro de 2016

A grande fome

Nos meados do século XIX, a fome na Irlanda transforma-se num cataclismo. Desde esse momento e durante muito tempo, a Irlanda torna-se num país mártir. De imediato, os irlandeses começam a abandonar a terra.

    Entre dois recenseamentos, de 1841 a 1851, a Irlanda perde cerca de 25% da população. Um cataclismo de tal dimensões é único na Europa moderna, e bastante inesperado dado acontecer às portas de Inglaterra, um país aparentemente estável e rico. É sem sombra de dúvida que é a partir de 1844 que a Europa passa por uma fome incrível, uma enorme crise alimentar. Contudo, parece que a Irlanda foi o único país onde a terrível crise alimentar degenera num cataclismo, numa fome terrível durante, pelo menos, cinco longos anos. 

Um equilíbrio precário 

    A amplitude do problema poder-se-á dever às próprias características da Irlanda do começo do século XIX, particularmente frágil. Em 1840, momentos antes da fome, a ilha está extraordinariamente povoada. A população terá duplicada em cerca de 50 anos, sendo então considerado o país mais denso da Europa. Por outro lado, quase todo o território está ocupado pela atividade agrícola, sendo a pressão sobre a terra extremamente forte, e as rendas extremamente altas. O sistema do conacre está bastante divulgado: trata-se do aluguer de um pequeno pedaço de terra apenas pelo tempo de uma colheita. As consequências são particularmente más: cada ano o camponês tem de inquietar-se e incomodar-se a buscar uma nova forma e sítio para sustentar a sua família. A situação dos trabalhadores agrícolas e dos trabalhadores sem terra é cada vez mais precária. Curiosamente, é a batata que permite uma concentração de população tal numa superfície tão fraca. Perfeitamente adaptada ao clima irlandês,  graças à sua elevadíssima produção, este tubérculo permite sustentar uma família de seis pessoas durante um ano, num terreno de aproximadamente 7000m2. Era a verdadeira base da alimentação dos Irlandeses. 

    A batata chegou à Irlanda por volta do ano 1590, tendo sido fácil o seu cultivo já que o clima húmido e temperado propiciava o seu crescimento; além disso, a batata podia ser plantada até mesmo em solo pobre. Servia de alimento para homens e animais. 
    Em meados do século XIX, aproximadamente um terço de toda a terra arável era utilizada no cultivo da batata. Quase dois terços da produção eram usados para o consumo humano. Um irlandês da classe média comia batata todos os dias e quase nada mais. 



A doença inesperada

    O tubérculo milagroso sofre uma dura queda na sua produção quando a doença "da batata" tem lugar. A culpa parece dever-se a um fungo específico, Phytophthorans infestans, que se começa a desenvolver nas folhas da planta e, durante a apanha, estende-se até ao próprio tubérculo. As batatas que parecem sãs à primeira vista, simplesmente apodrecem em poucos dias. Para além disto, o fungo parece ficar latente nos tubérculos e continuar a razia em anos seguintes. À parte disto, a Irlanda junta nestes anos vários factores para a proliferação da praga: pouco gelo, forte humidade, ausência de chuvas violentas, que em outras ocasiões limpariam as folhas. 

Batata infectada com Phytophthorans infestans

Uma desgraça política

    À parte da grande doença da batata, a situação política do país começa a contribuir de forma evidente para o cataclismo do país. Desde o século XVI que este país é governado pela Inglaterra. Parece não se tratar de uma união, mas sim de um claro domínio, traduzido pela ocupação das terras férteis pelos landlords inglese que, apesar de não residirem na Irlanda, retiram de lá todos os lucros possíveis. No momento da grande fome, este distanciamento entre os proprietários e camponeses, impedem que a solidariedade e caridade atuem de forma adequada, numa época em que o estado ainda não é capaz de tomar nas suas próprias mãos a assistência aos necessitados. Precisamente é também devido a membros do Estado, concretamente devido ao afastamento de Londres com responsabilidades  diretas na Irlanda, que se deve a grande inadequação das medidas tomadas. 




Junção de catástrofes

    Em Agosto de 1845, quando a colheita se anuncia excelente, surgem pela primeira vez os sintomas da doença da batata. Em Outubro, na altura da colheita, não restam dúvidas: o essencial da colheita está perdido. E com ela o principal recurso alimentar do país. Só nos primeiros meses de 1846, as reservas esgotam-se. Para os mais pobres, a situação é um desastre já que não tem absolutamente acesso a nenhum alimento. Torna-se um pesadelo quando a própria colheita de 1846 não pode sequer ser aproveitada. O mesmo acontecerá nos anos seguintes. 
    Perante a falta deste alimento, o povo é forçado a consumir as reservas de cereais, destinadas à exportação. Não conseguem portanto obter dinheiro, não conseguindo pagar a renda. Expulsos, vão engrossar as filas dos sem-abrigo. 



    Por outro lado, nos registos do inverno de 46-47 registam-no como glacial. Apesar de ser uma situação inusitada na Irlanda, a neve começa a cair desde Outubro. Só em Cork, em cada semana de Dezembro são registados cerca de 100 sem-abrigos. 
    A catástrofe segue com a subida do preço das sementes, devido às más colheitas em toda Europa, impedindo o governo inglês de importar massivamente a "sua" cota parte de colheitas de cereais, agravando a situação também em Inglaterra. 
    Os organismos absolutamente débeis pela fome, as doenças começam a formar parte do quotidiano da Europa. A disenteria mata milhares de crianças, o escorbuto aparece devido à falta de vitamina C, normalmente contida na batata.
    Em 1847 é declarada uma epidemia de tifo. Em 1849, de cólera. No total, por cada individuo morto pela fome, morrem dois vitimados pelas doenças. 

Um governo desarmado?

    Em 1845, em Novembro, pressionado pelas alarmadas noticias que chegam da Irlanda, decide finalmente comprar cereais aos Estados Unidos. O problema é que se recusa a renovar a compra depois de esgotadas as provisões na Primavera. Ora é precisamente nesta altura que começa a verdadeira fome. Todas as tomadas de decisão do governo Inglês parecem fora de tempo e de contexto. Será necessário esperar pelos meados de 1847 para que surjam as primeiras sopas de distribuição de sopa aos pobres. 



    Perante a amplitude do desastre, assim como, frente à incapacidade governamental, para muitos a única solução é partir. Um milhão de irlandeses emigra durante a grande fome. Outro milhão em 1850. 
      Em 1847, navios com destino ao Canadá eram designados por "tumbas”, ou navios-caixão. Dos cerca de 100 000 emigrantes, mais de 16 000 morreram no mar, ou momentos depois de desembarcar. Cartas enviadas a amigos e parentes na Irlanda relatavam as horríveis e desumanas condições das viagens, mas nem isso deteve grande uma considerável quantidade de pessoas de emigrarem.

   Considerando o número de emigrantes, juntamente com o número de falecidos, a queda demográfica é muito significativa. De forma irónica, os registos da época parecem indicar que foi a diminuição populacional que ajudou a travar a grande catástrofe, já que a pressão agrária diminuiu drasticamente, diminuindo o fator de impacto da grande fome. Contudo, a doença da batata continuou por alguns anos mais. 

   O governo criou leis que cancelavam todas as dívidas contraídas em consequência da fome. A população começava a crescer de novo. Embora a praga afetasse algumas colheitas nos anos seguintes, tal não poderia ser comparado aos anos de horror que resultaram na perda de mais de um quarto da população da Irlanda devido à grande fome.








Fontes:
http://wol.jw.org/pt/wol/d/r5/lp-t/102002726#h=32
https://www.ego4u.com/en/read-on/countries/ireland/great-famine
http://www.historylearningsite.co.uk/ireland-1845-to-1922/the-great-famine-of-1845/
Circulo de Leitores, 2000, Memória do Mundo - das origens ao ano 2000. 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

DNA do "primeiro" Sevilhano

Tenho o prazer de publicar aqui no meu blogue a notícia referente a uma investigação levada a cabo no laboratório onde estou actualmente (Laboratorio de Genética Forense y Genética de Poblaciones, Madrid). 

Neste caso em concreto, a amostra do inviduo, o "pirmeiro Sevilhano", foi analizada pela minha colega Dra Sara Palomo. A informação obtida será agora publicada em revistas científicas internacionais.

Espero muito em breve poder também partilhar notícias relativas à nossa investigação de DNA da população Fenícia Antiga de Cádiz e do "primeiro Asturiano" cujo fenotipo (ou seja, aspecto exterior, como a cor da pele, cor dos olhos e do cabelo) foi  determinado através de análises genéticas, em colaboração com a Univ. Santiago de Compostela. 





sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Documentário: “FUNDEADOURO ROMANO EM OLISIPO”

Gostaria de partilhar convosco uma notícia relativa a um documentário de “FUNDEADOURO ROMANO EM OLISIPO”O porto de Lisboa em época romana.


Apresento de seguida o trailer e a respectiva nota informativa no link: 
http://www.portugalromano.com/site/documentario-fundeadouro-romano-em-olispo/





Fonte: PortugalRomano.com

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Em Memória de Auschwitz


Na semana em que se comemoram 70 anos da libertação daquele que foi um dos maiores crimes cometidos pelo Homem na Europa, deixo aqui a minha profunda homenagem a todos aqueles que não tiveram a oportunidade de serem libertados e a todos aqueles que conseguiram sobreviver ao inferno. Uma grande saudação e homenagem aos grandes heróis sobreviventes dos Campos de Concentração.


1.Drone da BBC revela o campo de concentração de Auschwitz como nunca tinha sido visto antes
Fonte: BBC News




2.  Cerimónia de Homenagem






3: A História nunca contada dos Portugueses em Auschwitz
Fonte: Publico

http://publico.pt/portugal/noticia/a-historia-nunca-contada-dos-portugueses-nos-campos-de-concentracao-1659681

" O destino, desconhecido para os passageiros do comboio n.º 813, era o campo de concentração de Auschwitz, na Polónia. A bordo ia Michael Fresco, um judeu português, nascido em Lisboa, a 15 de Setembro de 1911. Enquanto Michael era deportado para Auschwitz, Luiz Ferreira, um funileiro da região de Guimarães, emigrado em Lyon, já tinha sido “apanhado” pelo regime(...)"


4: Investigação inédita detecta 70 portugueses nos campos de concentração nazis
Fonte: Publico


"(...)Há certas categorias cuja punição era o campo de concentração(...)".





















domingo, 28 de dezembro de 2014

São Mamede Infesta

Na atualidade, a freguesia de São Mamede Infesta, em Matosinhos (distrito do Porto) é uma localidade com bastante movimento, mas longe do grande movimento das grandes cidades. Contudo, São Mamede Infesta, ao contrário do que se possa pensar, é uma localidade muito muito antiga, possivelmente já com História mesmo antes da fundação da Nação. 

Tempos Remotos

     Datará possivelmente do período Neolítico, os primeiros povoamentos nesta terra. Existem indícios arqueológicos de monumentos megalíticos na freguesia de Custóias. Mais tarde, os Fenícios estabeleceram reitorias na Península, a partir do séc. X a.C., tendo navegado até à foz do Douro e, mais tarde, outros povos chegaram a esta parte do Norte de Portugal, dada a sua conexão quer com o Oceano Atlântico, quer com o rio Douro, como por exemplo os Celtas. 

Guerra e o Império Romano

     As guerras Púnicas entre Roma e Cartago, trouxeram para a Península Ibérica as legiões romanas, a partir de 218 a.C. Depois da derrota dos cartaginesas em 206 a. C., Roma considerou a Península como seu domínio militar, para combater os vários levantamentos dos povos indígenas [1].

     No ano de 197 a.C. foram enviados para a Península Ibérica Semprónio Tudiano e M. Hélvio, a fim de dividir o território ocupado em duas províncias: a Hispânia Ulterior (ocidente) e a Citerior (oriente) [1].

     Os indícios que chegaram até hoje revelam que só no ano de 138 a. c. se efetuou a primeira grande campanha militar romana no atual território português. Tal iniciativa esteve a cargo do governador da Hispânia Ulterior, Décio Júnio Bruto [1]. Segundo Estrabão, sabemos que Júnio Bruto avançou para norte, contornando as regiões montanhosas do interior. Tal decisão mantinha a sua força o mais perto possível do litoral, a fim de receber reforços por via marítima. Este itinerário seria depois, provavelmente, escolhido para a estrada que viria a ligar Olissipo (nome romano dado à actual cidade de Lisboa)  a Bracara (nome romano dado à atual cidade de Braga), passando provavelmente por território que hoje é S. Mamede de Infesta. Júnio Bruto foi até ao rio Minho, tendo voltado para trás [1]. Por outro lado, Caio Júlio César foi governador da Hispânia Ulterior no ano de 61 a C. tendo efetuado uma expedição naval à Galiza, passando pela foz do rio Douro.

      Os registos fazem crer que, no sec. I, teria existido uma “villa ” Decio e um templo dedicado a Júpiter, onde hoje está localizado o Mosteiro de Leça do Balio, em São Mamede de Infesta. Também na Quinta dos Alões, foi descoberta uma ara com a seguinte inscrição: “Flavus, filho de Rufo, cumpriu de boa mente o voto a Júpíter Optímus, Maxímus”[1]. Tais descobertas não são efetivamente de estranhar, já que S. Mamede de Infesta era atravessada pela estrada que ligava Olissipo a Bracara. Dessa via existe o local onde ela atravessava o rio Leça, na Ponte da Pedra, onde hoje existe a velha ponte medieval. Efectivamente, encontraram-se na Quinta do Dourado um marco miliar romano, onde se encontra gravado o nome do imperador Adriano. Este marco miliar está no cemitério paroquial, junto da igreja matriz, transformado em cruz.

      Decorria o ano 212, e o imperador Caracala, pelo édito com o seu nome, concedeu a cidadania romana a todos os povos do império. Sob Diocleciano, entre 284 e 288, passa a existir uma nova reorganização se das províncias hispânicas, sendo formada uma nova província, a Galécia. Esta província tinha como fronteira a sul, o rio Douro, indo pelo norte até à Galiza. Nesta época, as vias de comunicação eram elementos de coesão de toda a estratégia romana na península. A via que ligava Olisipo a Bracara era certamente a mais importante rota do Norte ao Sul do atual território português [1]. Esta via tinha também conexão à Serra do Gerês.  



Ponte da Pedra

      É com a grande ligação com a Maia (grande território agrícola) e o Porto (grande território comercial) que São Mamede vê o seu número de habitantes crescer gradualmente.  

     Uma outra construção reveladora da importância que as vias de comunicação desde sempre assumiram em S. Mamede de Infesta é a Capela do Lugar do Telheiro. Segundo contos antigos, na viagem de Lisboa para Pádua, Santo António terá pernoitado debaixo de um telheiro, readquirido aí forças para se recolocar ao caminho. Foi esse telheiro que ganhou nome de Lugar e honras de Capela [1].

       No livro do Tombo da Baliagem de Leça, em 1566, São Mamede de Infesta possuía os seguintes lugares: Aldeia de Baixo, Ermida, Outeiro, Carril Branco, Laranjeira, Casal da Igreja, Casal das Devesa. Eirado, Moalde, Casal do Meio e Casal da Poupa. Em 1643, já se chamava São Mamede da Ermida e era constituída pelos seguintes lugares: Eirado, Corujeira, Ermida, Laranjeira, Aldeia da Igreja, Telheiro, Carril Branco, Tronco, Moalde, Casal da Poupa, Asprela, Arroteia, Casal de Baixo, Deveza, Outeiro, Alagoa, Cidreira e Cavada [2]. 

      A importância do Couto de Leça no início do século XVI justifica que, em 4 de Junho de 1519, o rei D. Manuel lhe atribua uma carta de foral. Leça é constituída em município, para fins administrativos, com julgado próprio e com três freguesias - Leça, Custóias e São Mamede. Cada uma das freguesias elegia dois vereadores e os seis elegiam outro, que servia como juiz ordinário do julgado [2].

Guerras Liberais

     São Mamede de Infesta participou em diversos momentos históricos, sendo as Guerras Liberais um deles. Após o desembarque das tropas de D. Pedro, 8 de Julho de 1832, a cidade do Porto foi ocupada sem grandes confrontos no dia 9. Efetivamente, as tropas miguelistas cercaram a cidade durante um longo ano (1832 a 1833), tendo o rei D. Miguel utilizado a casa da Quinta da Pedra para sua residência [2]. Contudo, em São Mamede de Infesta estava um grande e forte dispositivo de combate. 

     Em 30 de Maio de 1834, é extinto o couto de Leça, juntamente com todas as ordens religiosas do País, por decreto de D. Pedro e do ministro Joaquim António de Aguiar, sendo o município incluído juntamente com a Freguesia de S. Mamede de Infesta, no Concelho de Bouças. Os terrenos pertencentes ao Couto de Leça, foram anexados à coroa, sendo posteriormente leiloados a partir de Abril de 1835, devido à grave situação económica do País

Um rio importante

     São diversas as referências ao rio Leça em textos com antiguidade considerável. 

    Estávamos no ano 1809 e o general Soult, que comandava as tropas francesas na invasão ao Porto, escolheu a margem do rio Leça para instalar as suas tropas, tendo-se albergado no palácio das suas margens, onde terá desenhado o seu plano invasor [1].

    Anos mais tarde, em 1833, época de outras contendas, um reduto das tropas miguelistas ficou sitiado no Lugar do Telheiro, para cortar a estrada que ligava Porto a Braga [1].

     As potencialidades urbanísticas e a riqueza dos recursos naturais levaram a que, tanto no fim do século XIX como nos dois primeiros quartéis do século XX, S. Mamede fosse reconhecida como uma “lindíssima estância” (segundo o jornal Lidador) onde abundavam os passeios de barco, os piqueniques, os bailes de Domingo e as tertúlias que frequentemente lá se desenrolavam [1].





Igreja de São Mamede de Infesta




Origem do nome

      O nome atual “São Mamede de Infesta” não reflete a denominação que este local sempre teve; efetivamente, é em 1706 que esta freguesia adquire esta denominação. Nas Inquirições de 1258 e de 1527, o nome era São Mamede. Porém, em documentos mais antigos, a localidade era designada por São Mamede de Tresores (o termo Tresores vem de três orres, ou vales, que efetivamente ladeiam a freguesia) [1]. 
    
      O termo atual “Infesta” aparece na “Corografia Portuguesa” do Padre Carvalho da Costa e tem variado muito, pois também se acha S. Mamede da Ermida e S. Mamede da Hermida da Infesta, nas Constituições do Bispado do Porto de 1735 e noutros documentos do séc. XVIII e S. Mamede de Moalde no “Catálogo e História dos Bispos do Porto” de Rodrigo da Cunha, em 1623 e na ” Nova História da Ordem de Malta ” de José Anastácio Figueiredo. 

     “Infesta” é um termo arcaico que significa subida, podendo ser bem aplicado a esta localidade já que a localidade se encontra numa elevação que domina o rio Leça. 

      Contudo, o nome de origem será Sanctus Mamethus. Assim sendo, pensa-se que Moalde será, possivelmente, o mais antigo lugar da freguesia de S. Mamede de Infesta. A primeira vez que é nomeada foi no ano de 994 e em 1008, sob a forma de villa Manualdí, isto é, quinta ou herdade de alguém chamado Manualdo [1]. 

     Por outro lado, o nome da localidade "Seixo" será igualmente um lugar muito antigo desta freguesia, pois já nas Inquirições de D. Afonso III em 1258, se menciona o seu nome. Este lugar foi desmembrado da freguesia de Ramalde em 1895, sendo anexado a S. Mamede.






Estação Ferroviária de São Mamede Infesta

Excerto de um vídeo com imagens de São Mamede Infesta, ano de 1930 (publicado em "youtube")

https://www.youtube.com/watch?v=GQzPXcVHSCI


Fonte: 
http://www.uniaojf-sminfesta-srahora.pt/cidades/historia/
http://paroquiasmamedeinfesta.blogs.sapo.pt/430.html