Perdida na História

Perdida na História

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

25 de Dezembro

      Decorria o ano de 440 e o Papa dá a bênção a uma festa para os Cristãos: 25 de Dezembro é então definido como a data de nascimento de Jesus e a prática do Natal é oficializada. Contudo, ao contrário daquilo que a maioria das pessoas pensa, o Natal tem a sua origem há muitos séculos atrás, muito antes do nascimento de Jesus.

O dia 25 de Dezembro
      É consensual: o dia 25 de Dezembro era, em várias religiões ditas pagãs, o dia em que se comemorava o nascimento e se venerava o deus Sol. Por exemplo, na religião Persa, Mitra terá nascido a 25 de Dezembro. Numa altura em que a cristandade não era ainda uma larga maioria, os líderes religiosos tiveram a percepção de que proibir as festividades pagãs seria inútil: quanto mais proibitivo se tornasse, mais força ganharia, ou não fora assim mesmo que o Cristianismo ele próprio terá ganho expressão?

      Ao fazer desaparecer este dia 25 de Dezembro, onde em diversos pontos do Próximo e Médio Oriente, Norte de África eram celebrados impressionantes festivais em honra de diversos deuses, Roma corria o sério risco de deixar ali um vazio, provocando um profundo descontentamento na população. Deu-se então preferência à substituição do dia “pagão”, pelo dia “santo”.
      Curioso mesmo é que o Egipto e o Oriente festejavam a Natividade em Março, entre os dias 25 e 28.

A Saturnália
      Situando-se previsivelmente entre o dia 17 e o dia 1 de Janeiro, a Saturnália talvez fosse das festividades mais importantes para o povo romano. Algumas fontes revelam que há a possibilidade de que, durante esse período, não se trabalhava, sendo os dias dedicados à visita de amigos, confraternização e troca de presentes. Apesar das fontes não terem total certeza, consta que neste período de grandes afectos, os escravos teriam permissão para fazer o que mais gostassem, sendo nalguns casos servidos pelos próprios amos. A Saturnália era uma festa muito importante em honra de Saturno, pelo que durante a festividade, um indivíduo era coroado rei, interpretando o papel do deus Saturno. Nesta época, os cidadãos substituíam a sua toga pela simples túnica e até as campanhas militares eram formalmente suspensas.




O Solstício
      Também neste período do ano, marcado pelo solstício de Inverno a 21 de Dezembro, o povo romano era ainda mais devoto aos deuses, entregando toda a sua devoção e oferendas em troca de um Inverno brando, assim como do regresso do Sol na Primavera, por forma a terem um excelente ano de colheita. Qual a ligação com a Saturnália? Efectivamente, além de associado à força e justiça, o deus Saturno estava também interligado com a agricultura, daí a grande festividade neste período em sua honra.
Natalis Solis Invicti
      Já no que diz respeito ao dia 25 de Dezembro, contam algumas histórias da época que seria mais ou menos a partir deste dia que os pastores começavam a notar o crescimento dos dias, ou seja, o dia mais longo que a noite: apesar de frio, o sol começava agora a fazer-se sentir lentamente.  Até as ruas eram decoradas com ramos por forma a espantar os maus espíritos.
     De facto, no dia 25 celebrava-se já desde o Imperador Aureliano a Natalis Solis Invicti ("nascimento do sol invencível"), uma homenagem ao deus persa Mitra, também ele popular em Roma. As festividades pagãs do Natalis Solis Invicti envolviam a decoração de árvores com luzes (velas) e a troca de presentes.


      Juliano,  sobrinho do imperador Constantino, comentou a festa de 25 de Dezembro:
      "Antes do inicio do ano, no final do mês cujo nome é segundo Saturno (dezembro), celebramos em honra de Helios (o Sol), os jogos mais esplendidos e dedicamos o festival ao Invencível Sol... Que os deuses governantes me concedam louvar e sacrificar neste festival com sacrifícios! E sobre todos os outros, que Helios mesmo, o rei de todos, conceda-me isto".



      Já na altura de oficializar o Natal Cristão, a argumentação da Igreja na altura foi clara: “Jesus é o Sol da Justiça”.
      Tanto pagãos quanto cristãos, ficaram satisfeitos: quanto ao povo não - cristão, terão visto ali uma forma de integração na nova religião, sem que os seus cultos fossem modificados em grande escala; quanto aos cristãos, passaram a ter a bênção oficial da Igreja para festejar a Natividade, neste caso, naquele dia específico. Alguns afirmam que terá sido uma habilidosa forma de atrair pagãos para o cristianismo.
      Terá sido no ano 440 que se tornou oficial: Jesus nasceu no dia 25 de Dezembro.


     Todavia, os cristãos do Oriente terão adaptado esta celebração para o dia 6 de Janeiro, curiosamente também com um pano de fundo pagão, visto ser a data da aparição de Osíris entre os egípcios e de Dionísio entre os gregos.

Setembro

      Efectivamente, do ponto de vista actual, pensa-se que não era possível Jesus ter nascido em Dezembro, senão veja-se: é narrado que os pastores também viram a estrela cadente, pois ainda estariam nos seus campos. Ora, no Próximo Oriente o frio em Dezembro é bastante acentuado, não sendo plausível a presença de pastores no campo numa noite invernal, nem tão pouco a longuíssima viagem dos reis.

       Contudo, e juntando a possível existência da estrela cadente (partes de meteoritos ao entrarem na atmosfera terrestre) à presença dos pastores nos campos, são vários os historiadores que apontam este nascimento para o final de Setembro, início de Outubro, onde a probabilidade do céu estar limpo é maior, logo, a visualização do possível fenómeno da estrela também. Obviamente, não existe qualquer certeza neste campo, sendo apenas possibilidades apontadas pelos especialistas bíblicos, arqueólogos e historiadores.


Algumas curiosidades
     - Devido à sua origem não - bíblica, no século XVII, o Natal foi proibido em Inglaterra e nalgumas colónias americanas. Os indivíduos que ficassem em casa e não fossem trabalhar no dia de Natal eram multados. Porém, os velhos costumes foram mais persistentes e voltaram.
     - Alguns historiados apontam as Saturnálias como a festa que mais tarde veio a originar o Carnaval.
     -Qual o motivo da decoração da árvore de Natal com bolas e outros adornos? Tudo aponta, uma vez mais, para a integração na religião cristã de cultos há muito enraizados nos povos: colocar adornos nas árvores natalícias remonta aos tempos em que os povos colocavam frutas, em especial maçãs, nas árvores, no Inverno, como forma de pedir aos deuses abundância e fertilidade nas colheitas do ano vindouro.  

      - Segundo Acir, na Bíblia apenas são mencionadas duas festas natalícias: uma quando o faraó comemora o seu aniversário e a segunda quando Herodes oferece, num banquete, a cabeça de João Baptista a Salomé. Quanto ao faraó, também este festejo terá tido associada uma morte: a do seu padeiro. Um historiador comentou: "A noção de uma festa de aniversário era desconhecida aos cristãos da igreja primitiva."
      -A Nova Enciclopédia Católica reconhece: "A data do nascimento de Cristo não é conhecida. Os evangelhos não indicam nem o dia nem o mês." A revista católica americana U.S. Catholic diz: "É impossível separar o Natal de suas origens pagãs."

  -As antigas comemorações de Natal costumavam cerca de 12 dias, o tempo que os três reis Magos levaram até chegarem a Belém. Actualmente, é costume montar as árvores de Natal e outras decorações no começo de Dezembro e desmontá-las cerca de 12 dias após o Natal.


Não existe consenso acerca da data do nascimento de Jesus. O que é facto é que, há muitos séculos, o Natal é símbolo de União, Fraternidade, Paz e Alegria. 

Desejo a todos um Feliz Natal! ;)



Fontes:

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Um caso milenar

O conjunto de pedras gigantes que se ergue no sul da Grã-Bretanha, em Stonehenge, marca o apogeu da civilização megalítica que se propagou ao longo da costa da Europa Ocidental no III milénio e terá desaparecido totalmente cerca de 1 500a.C. O que significam os monumentos erguidos, quem os colocou lá e qual a sua real finalidade são questões que ainda hoje não encontram resposta. Contudo, algo foi finalmente comprovado.


 


      O que terá levado os homens desta época a colocar e a cravar blocos de pedra gigantes (menires), mal desbastados neste local? Que razões impenetráveis aos nossos olhos os terão levado a alinhá-los ao longo dos campos? Porquê colocá-los em círculos (os cromeleques) em torno de túmulos funerários? A que rituais funerários obedeciam quando colocam por cima dos túmulos colectivos as imensas lajes dos dólmenes? São um mar imenso de dúvidas sem resposta. Contudo, é dificil para quem se aproxima deste local aperceber-se de tudo isto: se por um lado o local tem uma áurea de santuário, por outro lado, só nos apercebemos realmente da sua magnificiência quando o vimos do alto, em toda a sua exuberância.





Um culto solar?

      Nos finais do III milénio, ou mesmo antes, um círculo de buracos rituais rodeados por um fosso e um talude circular sacraliza o lugar no interior do qual foram erguidos, por ordem e em diferentes épocas (supõe-se que em 3 fases de construção), os menires de Stonehenge. São talvez 40 os que se conservam ainda hoje de pé. Na sua maioria com 4,15m de altura, estão unidos dois a dois por lintéis monolíticos - pesadas travessas horizontais de um bloco único. Originalmente formavam um círculo de 31m de diâmetro. Dentro deste primeiro círculo, menires mais pequenos descrevem um segundos círculo, ainda hoje visível. Cada um com três blocos, os cinco menires do interior atingem os 6,70 m de altura, estando dispostos em ferradura. Não se sabe que razões terão ditado o plano geométrico do local ou que critério terá sido utilizado para a escolha das alturas.






      Sabe-se, contudo, que a via ladeada de menires, hoje desaparecidos, que conduzia o santuário ao rio Avalon, se orientava segundo o eixo do Sol nascente no solstício de Verão. Ora, os alinhamentos dos menires de Carnac, na Bretanha, os mais célebres do mundo, são alinhados pelo percurso do Sol nas diferentes épocas do ano. Desta forma, há a tentação em concluir que talvez Stonehenge, à semelhança daquilo que ocorre em todos os grandes sítios megalíticos por toda a Europa, correspondia a um culto solar. Levanta-se aqui outra questão: que culto solar? E estará esse culto ligado ao culto da Lua tal como também já se supôs?  



      Ao meditar sobre os mistérios de Stonehenge, vale lembrar que, naquela época, diferentes tribos e autoridades contribuíram para a construção de Stonehenge. Cada um pode ter tido objectivos diferentes para construir o monumento.

      Não se sabe quem construiu Stonehenge, sendo que a teoria popular de que teriam sido os druídas está hoje refutada, pois o monumento foi concluído 1 000 anos antes de os druídas tomarem "o poder". Contudo, os arqueólogos notaram a quase total ausência de "lixo" no local, indicando que o local era solo sagrado.

Stonehenge?

Os saxões chamavam ao grupo de pedras erectas "Stonehenge" ou "Hanging Stones" (pedras suspensas), enquanto os escritores medievais se lhes referem como "Dança de Gigantes"



Força humana

      Pensa-se que este local terá originalmente tido 125 menires. As suas pedras maiores pesam 50 toneladas. Este facto levanta uma questão: como terão sido tranportadas para o local? São muitas as hipóteses: por via marítima? de trenó? sobre rolos? ou sobre achas de madeira dispostos num aterro feito para o efeito?

      Já no que diz respeito à colocação das pedras, numa altura em que se supõem não existirem sistemas de elevação, como terão conseguido colocar exactamente na vertical pedras de uma altura tão grande? Para esta questão existe uma explicação plausível: as pedras terão sido trazidas sobre toros de madeira até ao local onde deveriam ser colocados, havendo aí um fosso escavado para receber a pedra. Aí terão sido equilibradas graças a uma massa de terra, sendo depois imobilizadas com terra e calhaus para assegurar a sua completa estabilidade. 




Magia?

      É no entanto curioso que na Idade Média Stonehenge suscitava muitas teorias acerca do autor da sua construção. De facto, para muitas pessoas desta época da História, este santuário teria mesmo sido construído pelo feiticeiro Merlin. 

      Stonehenge sobreviveu e a sua magia nunca desapareceu. Atribui-se ao mago Merlim o levantamento das pedras, enquanto que a população local acreditou por muitos anos que as pedras tinham poder curativo que, quando transferidos para a água, conseguiam curar todo o tipo de doenças.

A origem das pedras: finalmente a comprovação

      A proveniência de parte das pedras que organizam o círculo mais interno do monumento de Stonehenge foi comprovada. As rochas são provenientes de um afloramento rochoso no norte do condado de Pembrokshire, situado na costa do País de Gales.
      Os investigadores da Universidade de Leicester e do Museu Nacional de Gales estudaram a mineralogia de um tipo de rochas que constituem o círculo central do monumento para determinar o local da sua origem. 
      Richard Bevins e Rob Ixer foram mais longe e comprovaram que as pedras fazem parte de um afloramento rochoso granítico chamado Craig Rhos-y-felin, que fica perto de Pont Saeson, no Norte do condado de Gales.

      Ao longo de nove meses os cientistas estudaram as rochas chamadas de bluestones situadas no círculo mais interno do monumento. As bluestones são um termo genérico que se refere às pedras que são originárias de outro local e foram trazidas para ali. Engloba 20 tipos de rochas diferentes. Os cientistas associaram a origem de 99% das amostras de bluestones a este afloramento granítico em particular.

      No entanto, surge uma nova dúvida: porquê ir buscar tão grande carga a uma distância tão grande, quando se supõe que naquele local houvesse igualmente pedreiras?


Estranhos desenhos

       Não bastava já todo o enredo misterioso que circula à volta de Stonehenge, tendo-se ainda verificado que este complexo está interligado ao complexo dos Círculos Ingleses.





       Alguns arqueólogos passaram a tentar encontrar algumas explicações naturais para desvendar o mistério dos Círculos Ingleses, como fenómenos climáticos inusitados, casualidades meteorológicas, entre outras hipóteses mais complexas. Esses desenhos (círculos ingleses) costumam aparecer frequentemente em plantações de trigo, soja, cevada e milho. O mais interessante foi ter-se comprovado que os cereais se desenvolvem muito mais rápido no centro desses desenhos do que nas extremidades dos mesmos.



      Há muitos indivíduos a tentar interpretar o significado destes desenhos: alguns tentando-os ligar a símbolos matemáticos, outros a sistemas astronómicos, além de compará-los à símbologia de civilizações antigas, como Persas, Druidas, Romanos, Celtas, Egípcios.

Por agora, fica a certeza: não existem muitas certezas acerca de Stonehenge.


Fontes:
Jornal  PÚBLICO 19/12/2011
http://www.canaldehistoria.pt/noticias/2363/As-pedras-de-Stonehenge
Astier et al, (2000), Memória do Mundo, Cículo de Leitores

domingo, 18 de dezembro de 2011

"A campa do Preto"

      Uma lenda  antiga reside nos confins da história da Maia, cidade do Norte de Portugal. Poucos são capazes de descrever o que ali sucedeu, contudo, muito venerado é o lugar da Campa do Preto.

"Um preto de pura alma cujo nome se perdeu servia uma casa de um fidalgote que o tempo e a lenda empurraram para o anonimato"

      No ano de 1790 existia um belo solar em Guilhabreu, em Vila do Conde e, segundo os historiadores, possivelmente habitado por Gonçalo Mendes, o lidador da Maia. O fidalgo, apesar de ser reconhecida a sua aparência bem tratada, não deixava escapar as suas maneiras pouco nobres, muitíssimo provincianas na pior da formas.





      Conta a história que num resplandecente dia de sol, o dito fidalgo consegue arrastar até à sua mansão uma aldeã, também ela reconhecida pela sua delicadeza e exuberante beleza. Porém, as intenções do fidalgo não eram as mais ortodoxas, ao que a rapariga, apesar de iletrada e pouco culta, recusou, repudiou e fugiu o mais que pôde, entrando na vasta seara que ali existia.

      Contudo, conta a lenda que o fidalgo não terá gostado da forma como fora tratado pela plebeia. Manda juntar os seus escravos, ordenando a um deles que incendiassem toda a seara, depois, foi-lhes ordenado que se colocassem de sentinela em cada uma das saídas da seara, para que não restasse qualquer saída à rapariga e morresse, então, queimada.
      Uma vez mais a lenda toma lugar da história, referindo que aqui começa a desobediência de um dos escravos negros: apaga o seu archote, para que no lado em que ele estava posicionado a seara demorasse mais a incendiar. Terá sido, então, por aí que a rapariga terá fugido, para mal do escravo, sem que este tentasse sequer impedi-la de fugir.

      Se até aqui o fidalgo estaria vexado e irado, ao ter conhecimento da desobediência do escravo, terá ficado absolutamente fora de si. Chamando-o, apenas disse:

"Sela o meu cavalo, vou à festa da Senhora da Hora. E tu vais-me acompanhar"



      Para grande espanto dos presentes, o fidalgo monta o seu belíssimo cavalo e lança uma forte corda ao pescoço do escravo.

      Noutros tempos, há séculos atrás, a entrada para a Senhora da Hora fazia-se por Gemunde, um caminho particularmente agreste para quem o faz atado pelo pescoço a um poderoso cavalo. Efectivamente, se no início o honrado escravo acompanhou o cavalo, correndo o mais que pôde, não tardou a perder todas as suas forças, sendo fustigado por todas as pedras e rochedos do caminho.

      O fidalgo atiçava cada vez mais o forte cavalo, pelo que, o já morto escravo foi deixando em cada metro do caminho partes do seu corpo já dilacerado.
      O povo do lugar, por sua vez, mostrou a sua fúria contra o fidalgo assassino, recolhendo com grande veneração cada parte do corpo do "Santo Preto".
      Encontraram a cabeça em Gemunde ao que, apercebendo-se que o corpo estaria completo, erigiram-lhe uma campa com grande veneração: a Campa do Preto.

      O Lugar da Campa do Preto é hoje o símbolo dos tempos antigos, onde o senhor tinha o poder da vida dos seus escravos. Ali, dizem os habitantes locais, jaz o corpo de um Preto martirizado, o corpo de Santo Preto.







      Curiosamente, nunca foi atribuída pela Igreja Católica nenhum reconhecimento a este bondoso homem, o Preto. De facto, todos os anos é realizada uma Festa em honra do “Santo Preto”, estritamente popular e sem presença institucional da igreja: sem missa, procissão ou pároco presente.

Milagre?

      Á parte a lenda, um facto incontornável foi aquilo que sucedeu durante a Guerra Colonial. Desde o século XVIII a Campa do Preto é local de veneração para todos aqueles em grande aflição, nomeadamente pescadores de Matosinhos, ou todas as pessoas que vivem em grande aflição.
      Atribui-se, então, a este Santo renegado pela Igreja, o verdadeiro milagre de na Guerra Colonial não ter morrido um só homem, um só jovem desta terra de Gemunde, ao contrário daquilo que aconteceu nas terras vizinhas.

Discórdia com a Igreja

      Este culto sempre foi apontado pela Igreja como algo pagão. Decorria o ano de 1841 e tentou-se pôr um ponto final a esta “religião”. Uma das tentativas foi quando o “Prelado Diocesano” fez uma exortação pastoral sobre o tema, com o intuito de alertar os fiéis devotos do“Santo Preto”. Efectivamente, estiveram envolvidos o Administrador Geral do Distrito, juntamente com as Forças da Infantaria e Cavalaria, saídos do Porto tendo cercado o local de culto, procedendo ao

 “Exame de Averiguação (…) dos fundamentos que havia para a crença dos povos d’aquella e das visinhas freguezias, que veneravão alli a existência dos despojos mortaes de hum homem de cor preta que por tradição se diz foram sepultados naquelle sítio”.

      Começou-se a escavação do local. Nem um só vestígio de cadáver foi apontado pelas autoridades. Perante isto, a campa foi brutalmente arrasada, revolvida e remexida. Contudo, trinta anos depois, em 1871, uma Confraria clandestina apontou como certo a existência das ossadas do Santo homem ali perto, a poucos metros de distância. Contrariando toda a vontade da Santa Igreja, o culto voltou em força, sendo-lhe atribuídos vários milagres desde então, incluíndo também aquele da Guerra Colonial.

     Já na actualidade, a população local considera mais uma afronta da Igreja o facto de um pároco ter excomungado as bandas de musicias que tocavam na Festa da Campa do Preto.

    Não se registaram mais lutas ou braços de ferro com a Igreja. Ou tolera, ou simplesmente desistiu do monopólio das santidades.

Fontes:
Junta de Freguesia de Gemunde 

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

"Titulus regius", Blaybourne e o Mistério Tudor

  E se Elizabeth I, uma das maiores rainhas de todos os tempos, não fosse uma verdadeira herdeira ao trono inglês? E se Henrique VIII, seu pai, não fosse o verdadeiro herdeiro de Inglaterra? E se todos os actos de ambos fossem inválidos, visto nenhum ser o verdadeiro sucessor? E se toda a linhagem Tudor fosse uma mentira? Tudo começou com Cecily Neville.

A Peregrinação da Graça
    Yorkshire, 1536. Começa uma revolta popular que ficaria na memória de todo o povo do Norte de Inglaterra: a Peregrinação da Graça (ou Pilgrimage of Grace). No Sul, Henrique VIII leva a cabo a sua Reforma contra a Igreja Católica: após o seu casamento com Ana Bolena, o rei torna-se o centro de toda a religiosidade, torna-se a “vontade de Deus”, a “manifestação de Deus em Inglaterra”.
    O que de facto se verificava até então era um certo abuso por parte da Igreja Católica, quer a nível de riqueza, quer ao nível de como conseguia essa riqueza. Ao ser banida de Inglaterra, a Igreja sofre um estrondoso golpe: a dissolução dos Mosteiros e Igrejas, a destruição das “relíquias”, santos e outras estátuas, tudo isso terá, efectivamente, rendido à Coroa muitíssimo dinheiro e posto a nu muitas situações irregulares e escandalosas que aconteceram em alguns mosteiros e conventos. Se por um lado é verdade o que afirmavam contra a Igreja, é também verdade que esta Reforma não foi menos violenta: a fogueira e a tortura continuaram a ser muito usadas, mas agora contra os novos hereges: os católicos.

    Ora, o Norte de Inglaterra não aceitou de forma alguma esta Reforma. De facto, o Norte há muito que não era tido em consideração na governação do reino. O reino era Londres. O próprio clima, impostos e outros actos faziam desta zona de Inglaterra algo marginal, o povo sofria sem que houvesse qualquer comparação com o Sul. Assim, é desta forma que mais uma vez o rei ofende o povo do Norte: muitíssimo católico, com a devastação dos mosteiros e igrejas, o Norte fica cada vez mais pobre, sem interesse. Uma região do reino à parte. O Norte odiava profundamente este rei. Aliás, o Norte sabia ter motivos para não aceitar nenhum rei vindo da casa Tudor.


    Este é o palco para a Peregrinação da Graça. Antes deste grande e sangrento levantamento, muitas outras rebeliões do Norte, tiveram lugar: primeiro em Lincolnshire, depois em York, onde se fez mais sentir.

Robert Aske

     Aske era o filho mais novo de Sir Robert Aske de Aughton, perto de Selby, descendente de uma velha família de Yorkshire. Aske tornou-se advogado, tendo sido um Fellow em Gray's Inn. Um homem devoto, opôs-se às reformas religiosas de Henrique VIII, principalmente à Dissolução dos Mosteiros. Quando a rebelião eclodiu em York contra Henrique VIII, Aske estava de regresso a Yorkshire, vindo de Londres. Inicialmente não envolvido na rebelião, veio depois ele próprio a assumir a causa.
    No dia 10 de Outubro, para sua desgraça, Aske foi declarado o “Comandante – chefe de toda a peregrinação”. A maioria de Yorkshire, assim como algumas partes de Northumberland, Durham, Cumberland e Westmorland estavam em revolta.

Estátua de Robert Aske


    Após conversações com o duque de Norfolk (tio da Rainha Catherine Howard), Aske recebe a garantia de uma audiência e de passagem segura para comunicar com sua Majestade, o rei. Apesar de tal ter acontecido, ao voltar para York a revolta volta a eclodir. O rei muda de ideias. Robert Aske é prontamente levado para a tenebrosa Torre de Londres, onde é condenado e levam-no de volta para York, desta vez, para a prisão.

    A sua acusação era de traidor. Curiosa é mesmo a forma como cumpriu a sua pena: penduraram-no numa corda do alto da Torre de Clifford, estirado e esquartejado, tal como era costume para os traidores – não – nobres. De facto, o rei afirmara que Aske haveria de morrer muito antes de perder a cabeça. Aske demora dias a morrer. Ali fica pendurado, já como esqueleto, durante muito tempo, com o intuito de relembrar ao Norte qual a consequência para a traição. Aske fica na História como o símbolo da Peregrinação da Graça.

    O que na verdade poderá estar por trás desta forma horrenda de pena seria o segredo partilhado por Aske e por todos os conspiradores do Norte: Henrique VIII, o seu pai Henrique VII e toda a descendência Tudor seriam falsos reis. As provas existiam.


Regresso ao passado: Ricardo III



(a genealogia não está totalmente completa, clicar para ampliar)

    Eduardo IV morre inesperadamente no dia 9 de Abril de 1483. O seu filho e herdeiro, Príncipe Eduardo de Gales estava em Ludlow. As notícias chegaram a Ludlow apenas cinco dias depois. Por outro lado, as notícias terão também chegado a Ricardo de Gloucester, em Middleham, ao mesmo tempo. Ricardo de Gloucester (irmão do rei defunto) é nomeado regente da coroa e protector do jovem rei e do seu irmão de 9 anos Ricardo, o Duque de York. 


Ricardo III

    As disposições testamentárias de Eduardo IV não são recebidas como boas notícias, principalmente pelos Woodville (os parentes da rainha consorte) que receavam ver a sua posição desprotegida. Baseado em factos consistentes ou não, Ricardo foi avisado por Lord Hastings de uma tentativa para o isolar dos sobrinhos e afastar do poder. O Duque de Gloucester insurgiu-se depressa. Enquanto Eduardo V regressava de Gales acompanhado pelo tio materno Anthony Woodville, Ricardo interceptou o cortejo e mandou prender e executar Woodville e outros membros da família, por alegada tentativa de assassinato.
     A 22 de Junho de 1483, Ricardo de Gloucester faz ler uma declaração sua, em que anuncia a sua intenção de se tornar rei.

     Qual a sua fundamentação? 

     Ricardo chama a atenção para o facto do casamento do seu irmão, Eduardo IV, com Elizabeth Woodville ser falso e Eduardo ter sido bígamo. Ou seja, Eduardo IV teria um pré-contracto de casamento com uma outra mulher, possivelmente Eleanor Butler, o que faria com que o seu casamento com Elizabeth Woodville fosse falso e que todos os filhos daí existentes, nenhum teria direito ao trono.



Elizabeth Woodville  

    Esta teoria era fortemente apoiada pela “Grande Crónica”, por Polydore Vergil, assim como, pelo famosíssimo humanista Thomas More, grande personalidade do reinado de Henrique VIII.  Segundo conta a História, as provas apresentadas por Ricardo eram fortíssimas, de tal forma que o Parlamento, após as analisar, emitiu um documento designado por Titulus regius. Neste documento, o Parlamento afirma claramente que o verdadeiro e legítimo herdeiro é, e apenas pode ser, Ricardo de Gloucester, sendo coroado como Ricardo III.

     Porquê Ricardo? É efectivamente curioso. Anos antes, em 1478, o irmão de Eduardo IV (e de Ricardo), Jorge (duque de Clarence) é mandado executar por traição, exactamente por tentar depôr o irmão e tomar o poder com uma rebelião.

Jorge, duque de Clarence



    Um outro facto de toda esta história reside também nos chamados “Principes da Torre”. Após a subida ao poder de Ricardo III, os filhos de Eduardo IV (Eduardo V e Ricardo) simplesmente desaparecem.



Principes da Torre


     Há registos da presença de ambos os príncipes nos jardins da Torre de Londres, mas todos os relatos acabam após o verão de 1483. O destino das crianças permanece por esclarecer, presumindo-se que tenham morrido de fome ou que tenham sido assassinados na torre. Não existe igualmente qualquer registo ou documento acerca do funeral. Em 1674, durante um reforma na Torre, encontraram-se dois esqueletos nas escadas da capela e por ordem real, foram sepultados na Abadia de Westminster, acreditando-se serem os príncipes. Em 1933 procedeu-se à exumação dos corpos; porém, não se chegou a qualquer conclusão.

Casamento útil

Além dos Principes da Torre, Eduardo IV tivera também uma filha, Isabel de York. Casado com Isabel estava Henrique Tudor, um grande defensor da legalidade do casamento de Eduardo IV com Elizabeth Woodville. Obviamente esta busca pela legalidade estava interligada com o seu casamento, visto que, com o desaparecimento dos Principes da Torre, seria Isabel de York a real herdeira ao trono e, por conseguinte, Henrique Tudor.

Henrique VII


     Em 1485 Henrique Tudor defronta numa batalha Ricardo III que, após alianças imprevisíveis do seu adversário, vê quase metade do seu exército desertar. Ricardo III morre em batalha, sem herdeiros. Esta batalha, a Batalha de Bosworth Field foi a última da guerra das rosas (ver neste blogue a “Guerra das Rosas”). A morte de Ricardo leva à subida ao trono de Henrique Tudor, agora Henrique VII, dando-se inicio à dinastia Tudor.

Água Tumultuosas

    Vendo bem a situação, a ser verdade todo o conteúdo do documento Titulus regius, Henrique VII sobe ao poder de uma forma falsa, visto a rainha sua esposa, Isabel de York, não ser também ela legítima.
    No entanto, Henrique leva a cabo uma acção de uma eficácia espantosa: todos os documentos, todas as cópias de Titulus regius são mandadas destruir. Este Acto do Parlamento de Londres, na realidade, não existe nos dias de hoje. Henrique VII ordenou que jamais alguém pudesse ler o documento antes de o queimar. O que se presume, é que nenhuma cópia tenha sobrevivido até hoje, nem no Parlamento, nem em nenhum dos Colégios de Advocacia inglês. Tornou-se um documento herege.

    É também de ressalvar que era de todo o interesse de Henrique VII que os cunhados, os Príncipes da Torre, nunca mais aparecessem, figurando também ele como possível culpado pelos assassinatos das crianças.

    Porém, não seria só neste documento que Aske e os conspiradores do Norte se baseavam para tanto odiarem quer Henrique VII, quer Henrique VIII. Apesar de na altura de Aske (1536) o documento já ter sido destruído há muitas décadas, houve na altura de Titulus regius uma confissão que terá abalado o reino.


Cecily Neville



     Após a morte de Eduardo IV, seu filho, há provas de que Cecily Neville tenha feito uma declaração espantosa na Corte. Esta duquesa de York declara por sua honra em como Eduardo IV era seu filho, mas não de seu marido.

     Efectivamente, rumores na corte francesa apoiavam esta confissão, identificando o pai de Eduardo IV como um arqueiro inglês Blaybourne. A obra Bosworth 1485, de Michael Jones, relata a história.

    Por incrível que possa parecer, a dinastia Tudor não deveria ter direito ao poder por duas vias: primeiro devido ao documento Titulus regius, onde é provada a ilegitimidade dos filhos de Eduardo IV; por outro lado, nem o próprio Eduardo deveria ter sido rei, visto também ele ser ilegítimo.

    Se poderá ser verdade que deverão haver detalhes falsos, a história em si tem fundamento. O próprio ministro Thomas Cromwell tinha conhecimento, tendo mesmo sido interrogado pelo embaixador espanhol Chapuys, em 1535.

    Devido a uma coisa ou a outra, o que é facto é que, já no reinado de Henrique VIII, se tomam medidas para acautelar qualquer tentativa de subida ao poder dos outros familiares: Margarida, a condessa de Salisbury, é levada para a Torre e, sem julgamento, é executada.

    Actualmente, um documentário controverso do Channel 4, Britain’s Real Monarch (2004) leva a investigação ainda mais fundo, testando e estudando toda a genealogia que deveria então ter reinado. A equipa de investigação localizou o homem que na actualidade seria o legítimo rei, caso as afirmações de Cecily fossem certas. É um afável criador de carneiros, republicano por convicção e o seu nome deveria constar na História como Miguel I, rei de Inglaterra.

Fontes:
C.J.Sansom, O Soberano – intriga na Corte (2008), Asa
http://www.genealogy4u.com/genealogy/getperson.php?personID=I75456&tree=western2007

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A coroação de Hugo Capeto

Em 987, o rei carolíngio  Luis V morre num acidente de caça: não deixa descendência. Os grandes da Frância Ocidental preferem um rei não Carolíngio, preferem Hugo Capeto, descendente dos Robertianos. O rei é coroado em Noyon a 1 de Junho e sagrado, sem dúvida, a 3 de Julho. Ao personagem falta brilho; o seu breve reinado não é marcado por qualquer feito ilustre. Porém, inicia uma dinastia de 36 soberanos que se sucedem durante 800 anos, segundo as leis do sangue.

"Coroem o duque. É ilustríssimo pelos seus feitos, sua nobreza, suas forças. O trono não é adquirido por direito hereditário; ninguém deveria ser elevado a ele sem se distinguir não apenas pela nobreza do nascimento, mas pela bondade da sua alma."

Arcebispo Adalbarão de Reims

    Quando o último Carolíngio morreu na Alemanha, em 911, os descendentes de Carlos Magno mantiveram-se, não sem ruptura, na Frância Ocidental, até à tomada do poder por Hugo Capeto. 
    Enfraquecido pelas incursões normandas, o seu reino sofre sobretudo de debilidade interna: ao longo dos tempos, os grandes do reino tinham vindo a construir principados autónomos que dominam perfeitamente, no século X, antes de assistirem ao seu esboroamento no século XI, em proveito dos pequenos alcaides. Os últimos carolíngios são reis sem poder: a única base sólida de que dispõem está circunscrita aos vales do Oise e do Aisne.

A irresistível ascensão dos Robertianos

    A linhagem dos Robertianos, à qual Hugo Capeto pertencia, tem origem em Roberto, o Forte, aristocrata da região renana que fora para oeste e a quem Carlos, o Calvo, confia em 852 os condados de Anjou e da Touraine.  De certa forma, considera-se ter sido nomeado para a defesa do Vale do Loire contra os Normandos.




Quem era Hugo Capeto?
     Hugo Capeto era sobrinho-neto e neto, respectivamente, dos carolíngios Odo de Paris e Roberto I, os dois únicos reis dos francos eleitos. O seu sétimo avô por parte de sua avó Beatriz de Vermandois era Carlos Magno. Hugo pertencia então a uma família poderosa e com muitas ligações à nobreza reinante da Europa.
    Quando seu pai, Hugo, o Grande, morreu em 16 de Junho de 956, Hugo Capeto, o mais velho de  três filhos varões, era ainda menor. Foi colocado, juntamente com os seus dois irmãos, sob a tutela do seu tio materno, Bruno, duque de Lorena e arcebispo de Colónia.
    Herdeiro do seu pai, e por isso um dos mais poderosos nobres do reino, tornou-se conde d'Orleães e abade laico das abadias de São Martinho de Tours, Saint-Germain-des-Prés e Saint-Denis. Em 960, o rei Lotário de França concedeu-lhe os títulos que o seu pai detivera: duque dos francos e marquês de Nêustria. Era o nobre mais rico de seu tempo.


Coroação de Capeto

A rivalidade entre dois primos

    Hugo Capeto sucede ao seu pai, em 956: tem 16 anos; o novo rei Lotário, tem 13 anos e é seu primo. Os jovens são colocados sob a tutela dos seus tios germânicos: o rei Otão I e o arcebispo de Colónia, Bruno.
    O facto de serem menores e a ausência de um carácter forte em Hugo Capeto favorecem a decomposição do principado robertiano: antigos vassalos de Hugo, o Grande, o conde de Anjou, o conde de Blois-Chartres, também senhor de Tours, afirmam a sua independência antes de se revelarem os maiores e mais perigosos rivais dos primeiros Capetos.
    Entre Hugo e Lotário multiplicam-se os choques sem vantagem para nenhum: a situação aproveita aos grandes e aos Otonianos da Germânia.

    Mas em 978 Lotário toma uma iniciativa: tenta conquistar esta zona contestada, nascida do Tratado de Verdun, a antiga Lotaríngia, que Otão II então controla. A tentativa provoca a reacção do alemão, que vem acampar para a frente de Paris, cujas muralhas Hugo Capeto defende: Lotário, o penúltimo carolíngio deverá agora contar com a hostilidade do germânico. Quando morre, dois anos depois, a situação não evoluíra. Deixa um filho com 19 anos, que lhe sucede facilmente: trata-se de Luis V que, acidentalmente, morre um ano depois.

Luis V


Hugo Capeto, o reizinho

    Esta estranha morte é a oportunidade de Hugo Capeto: o arcebispo de Reims  e o partido Otoniano estimulam-no, os grandes do reino proclamam-no, visto a sua fraqueza ser a força deles.


Hugo Capeto


    De 978 a 986, Capeto aliou-se aos imperadores germânicos Oto II e Oto III e com o arcebispo Adalbarão de Reims para dominar o fraco rei Lotário. Já em 986, era na prática rei, apesar de não oficialmente.
    O reino em que Hugo viveu era bastante diferente da França actual. Os seus antecessores não eram reis de França, esse título só começaria a ser usado por Filipe, o Belo (1285-1314). O reis usavam o título de rex Francorum (Rei dos Francos) e as terras que governavam eram apenas uma pequena parte do antigo Império Carolíngio.






    O rei é somente senhor de Orleães e de Senlis, embora alguns bispos do Norte lhe tenham permitido estender o seu poder, indirectamente.

    Hugo captura um pretendente carolíngio, Carlos da Baixa Lorena, irmão de Lotário, que lhe é entregue pelo bispo de Laon. Mas o poder real em breve desaparece num conflito com o novo arcebispo de Reims, a quem são atribuídas as culpas de ter protegido o cativo. Contra o conde de Blois, Hugo inaugura uma política que os seus sucessores sistematizarão: exploração territorial e jogos de equilíbrio entre principados rivais. Homem de virtudes administrativas, Hugo Capeto não granjeou o poder por simples simpatias, mas sim por astúcia e  suborno.

Hugo Capeto


    Durante um século e meio, o poder real sobrevive. Mas os reis sucedem-se, de pai para filho: com o tempo, a continuidade familiar faz esquecer a origem do poder: uma usurpação.

O complexo de usurpação

    Durante dois séculos, a dinastia dos Capetos preocupa-se em assegurar o poder: o pai faz coroar o filho ainda em vida e associa-o ao reino; a propaganda real embeleza os acontecimentos de 987, imaginando uma associação ou parentesco com os Carolíngios.
    Estas práticas cessam a partir de Filipe Augusto (rei de 1180 a 1223), descendente, por sua mãe, dos Carolíngios e que pode, finalmente, reclamar legitimidade.

Eliminar mulheres.

    No século XIV, o contexto político obriga a formular a doutrina oficial de sucessão ao trono. Impõe-se, então, a regra de afastar as mulheres do trono, assim como da transmissão do trono. A pretensa "lei sálica" (remontaria aos Francos Sálicos), que acaba por se converter numa lei fundamental do reino, é formulada no tempo de Carlos V (rei de 1364 a 1380).

     Mas muitas crises anteriores impõe o seu princípio. A primeira estala em 1316, na morte de Luis X. Nasce-lhe um filho póstumo, João, que morre em cinco dias. Fica uma filha menor, Joana, rapidamente afastada pelo tio paterno, mas tarde Filipe V.

     Curiosamente, o precedente vira-se contra as filhas de Filipe V, a favor de de Carlos IV, irmão de Luis X. Este como deixa apenas uma filha, leva a uma grande encruzilhada: não resta ninguém, nenhum descendente directo de Hugo Capeto. Graças ao apoio dos barões, um Valois (descendente por via masculina de filhos segundos dos Capetos), impõe-se sob o nome de Filipe VI (1328-1350). O rei de Inglaterra, Eduardo III, é rejeitado visto o seu antecessor capetiano ser faminino. É um pretexto para a Guerra dos Cem Anos.         

Capeto?

    Existem várias hipóteses para explicar  Capeto, que serviu para distinguir Hugo do pai. A etimologia popular segue a explicação de ser o rei da capa (chappet), uma vez que antes de ser rei já era abade, e os abades da época usavam uma capa característica (em português: capelo, que por motivos semelhantes foi o cognome do rei Sancho II de Portugal).

    Outras etimologias derivam dos termos para chefe (caput), zombador (capetus) ou cabeça grande (capillo). Pensa-se também que o cognome do seu pai foi atribuído após a sua morte, a partir do latim Hugo Magnus, Hugo o Velho, sendo o seu filho Hugo, o Novo, e podendo Capeto ser uma invenção do século XII.

Hugo Capeto e o Futuro

    Os capetianos directos, ou a Casa de Capeto, governaram a França desde 987 a 1328. Depois, o reino foi regido por ramos colaterais da dinastia.
    De facto, todos os reis franceses até Luís Filipe, assim como os pretendentes ao trono desde então, foram membros dessa família (excepto a Casa de Bonaparte, imperadores e não reis).



    De salientar que D. Pedro I e D. Pedro II, ambos Imperadores do Brasil, eram descendentes em linha masculina directa de Hugo Capeto, fazendo parte também da dinastia capetiana.

    Actualmente, esta dinastia ainda faz parte da árvore genealógica do reino da Espanha e do ducado do Luxemburgo, sendo a mais antiga dinastia no poder monárquico da Europa, e a segunda mais antiga do mundo, depois da família imperial do Japão, com a linhagem documentada, pelo menos, até ao ano 706.

Fonte:
Astier et al, (2000), Memória do Mundo, Cículo de Leitores