Perdida na História

Perdida na História

domingo, 18 de dezembro de 2011

"A campa do Preto"

      Uma lenda  antiga reside nos confins da história da Maia, cidade do Norte de Portugal. Poucos são capazes de descrever o que ali sucedeu, contudo, muito venerado é o lugar da Campa do Preto.

"Um preto de pura alma cujo nome se perdeu servia uma casa de um fidalgote que o tempo e a lenda empurraram para o anonimato"

      No ano de 1790 existia um belo solar em Guilhabreu, em Vila do Conde e, segundo os historiadores, possivelmente habitado por Gonçalo Mendes, o lidador da Maia. O fidalgo, apesar de ser reconhecida a sua aparência bem tratada, não deixava escapar as suas maneiras pouco nobres, muitíssimo provincianas na pior da formas.





      Conta a história que num resplandecente dia de sol, o dito fidalgo consegue arrastar até à sua mansão uma aldeã, também ela reconhecida pela sua delicadeza e exuberante beleza. Porém, as intenções do fidalgo não eram as mais ortodoxas, ao que a rapariga, apesar de iletrada e pouco culta, recusou, repudiou e fugiu o mais que pôde, entrando na vasta seara que ali existia.

      Contudo, conta a lenda que o fidalgo não terá gostado da forma como fora tratado pela plebeia. Manda juntar os seus escravos, ordenando a um deles que incendiassem toda a seara, depois, foi-lhes ordenado que se colocassem de sentinela em cada uma das saídas da seara, para que não restasse qualquer saída à rapariga e morresse, então, queimada.
      Uma vez mais a lenda toma lugar da história, referindo que aqui começa a desobediência de um dos escravos negros: apaga o seu archote, para que no lado em que ele estava posicionado a seara demorasse mais a incendiar. Terá sido, então, por aí que a rapariga terá fugido, para mal do escravo, sem que este tentasse sequer impedi-la de fugir.

      Se até aqui o fidalgo estaria vexado e irado, ao ter conhecimento da desobediência do escravo, terá ficado absolutamente fora de si. Chamando-o, apenas disse:

"Sela o meu cavalo, vou à festa da Senhora da Hora. E tu vais-me acompanhar"



      Para grande espanto dos presentes, o fidalgo monta o seu belíssimo cavalo e lança uma forte corda ao pescoço do escravo.

      Noutros tempos, há séculos atrás, a entrada para a Senhora da Hora fazia-se por Gemunde, um caminho particularmente agreste para quem o faz atado pelo pescoço a um poderoso cavalo. Efectivamente, se no início o honrado escravo acompanhou o cavalo, correndo o mais que pôde, não tardou a perder todas as suas forças, sendo fustigado por todas as pedras e rochedos do caminho.

      O fidalgo atiçava cada vez mais o forte cavalo, pelo que, o já morto escravo foi deixando em cada metro do caminho partes do seu corpo já dilacerado.
      O povo do lugar, por sua vez, mostrou a sua fúria contra o fidalgo assassino, recolhendo com grande veneração cada parte do corpo do "Santo Preto".
      Encontraram a cabeça em Gemunde ao que, apercebendo-se que o corpo estaria completo, erigiram-lhe uma campa com grande veneração: a Campa do Preto.

      O Lugar da Campa do Preto é hoje o símbolo dos tempos antigos, onde o senhor tinha o poder da vida dos seus escravos. Ali, dizem os habitantes locais, jaz o corpo de um Preto martirizado, o corpo de Santo Preto.







      Curiosamente, nunca foi atribuída pela Igreja Católica nenhum reconhecimento a este bondoso homem, o Preto. De facto, todos os anos é realizada uma Festa em honra do “Santo Preto”, estritamente popular e sem presença institucional da igreja: sem missa, procissão ou pároco presente.

Milagre?

      Á parte a lenda, um facto incontornável foi aquilo que sucedeu durante a Guerra Colonial. Desde o século XVIII a Campa do Preto é local de veneração para todos aqueles em grande aflição, nomeadamente pescadores de Matosinhos, ou todas as pessoas que vivem em grande aflição.
      Atribui-se, então, a este Santo renegado pela Igreja, o verdadeiro milagre de na Guerra Colonial não ter morrido um só homem, um só jovem desta terra de Gemunde, ao contrário daquilo que aconteceu nas terras vizinhas.

Discórdia com a Igreja

      Este culto sempre foi apontado pela Igreja como algo pagão. Decorria o ano de 1841 e tentou-se pôr um ponto final a esta “religião”. Uma das tentativas foi quando o “Prelado Diocesano” fez uma exortação pastoral sobre o tema, com o intuito de alertar os fiéis devotos do“Santo Preto”. Efectivamente, estiveram envolvidos o Administrador Geral do Distrito, juntamente com as Forças da Infantaria e Cavalaria, saídos do Porto tendo cercado o local de culto, procedendo ao

 “Exame de Averiguação (…) dos fundamentos que havia para a crença dos povos d’aquella e das visinhas freguezias, que veneravão alli a existência dos despojos mortaes de hum homem de cor preta que por tradição se diz foram sepultados naquelle sítio”.

      Começou-se a escavação do local. Nem um só vestígio de cadáver foi apontado pelas autoridades. Perante isto, a campa foi brutalmente arrasada, revolvida e remexida. Contudo, trinta anos depois, em 1871, uma Confraria clandestina apontou como certo a existência das ossadas do Santo homem ali perto, a poucos metros de distância. Contrariando toda a vontade da Santa Igreja, o culto voltou em força, sendo-lhe atribuídos vários milagres desde então, incluíndo também aquele da Guerra Colonial.

     Já na actualidade, a população local considera mais uma afronta da Igreja o facto de um pároco ter excomungado as bandas de musicias que tocavam na Festa da Campa do Preto.

    Não se registaram mais lutas ou braços de ferro com a Igreja. Ou tolera, ou simplesmente desistiu do monopólio das santidades.

Fontes:
Junta de Freguesia de Gemunde 

2 comentários:

  1. Moro na casa da senhora... a tal moça... ;) abraço... se quiseres me conhecer, manda me um mail para imensoazul@hotmail.com (Daniela Christina Menegassi), tb podes me encontrar no face. beijo. obrigada pelo texto. <3

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