Perdida na História

Perdida na História

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Pedro: o enamorado, justo e doente mental.


     D. Pedro I subiu ao trono de Portugal com 37 anos, em 1357. Era provavelmente já bem conhecido em todo o território nacional, estando muito habituado a percorrê-lo de norte a sul. A ideia geral, era a de ser um príncipe que gostava de confraternizar com o seu povo. Contudo, não é pequena a distância entre a lenda do formoso D. Pedro e a verdadeira natureza do monarca…

O justo

     D. Pedro era obcecado pela justiça. Procurava aplicá-la de forma uniforme e democrática, chamando a si litígios de qualquer natureza. Quer o conseguisse, quer não, este desejo contribuiu bastante para a sua popularidade diante da plebe, assim como para as indulgências gerais ante os seus desatinos, alienações e atrocidades.



     O facto de ser rei não fez com que este monarca assentasse, antes pelo contrário, continuou a vaguear pelo território, incapaz de se demorar em qualquer aldeia ou cidade ou região. Era instável. Esta constante necessidade de mudança indicava sem dúvida, além de instabilidade, um grande nervosismo. Contudo, a verdade é que nenhum monarca português daquele tempo deve ter conhecido tão bem o território nacional de Monção a Faro, de Sintra a Olivença.

Crise, crise, crise

     Uma crise generalizada caracterizou todo o reinado de D. Pedro, explicando muitas das suas medidas: regulamento das pastagens, protecção à agricultura, assim como, moralização exacerbada, discriminação contra os judeus, perseguição a feiticeiras e magos, punições altamente exageradas. Obviamente nada disto impediu a recorrência quer da peste, quer da fome.

     No campo da justiça, este reinado trouxe um conjunto de medidas importantes que continuaram as medidas já implementadas por Afonso IV, tal como a criação de novos concelhos, leis de fomento do comércio marítimo internacional, entre outras. Porém, há registos de episódios de alegada justiça simplesmente anedóticos, como os que se descrevem de seguida…

Adultério: o pecado dos outros

     Apesar de toda a lenda envolta do seu cego amor pela galega Inês de Castro, são várias as fontes que põem em causa a sexualidade do monarca, hoje tida como bissexual. De facto, o monarca havia sido casado com Branca de Castela, mas repudiou-a, argumentando que a princesa tinha um aspecto doentio e frágil. Depois surgem três filhos entre Pedro e Inês de Castro, o que acalmam os rumores.

     Porém, a justiça de Pedro era absoluta (e cega) no que tocava aos seus amores…O cronista Fernão Lopes escreve um capítulo de uma sua obra intitulando-o: “Como El-Rei mandou capar um seu escudeiro porque dormia com uma mulher casada", levantando o véu por entre os rumores que corriam: o monarca tinha ciúmes do seu escudeiro, de nome Afonso Madeira. O escudeiro é descrito como “um grande cavalgador, caçador, lutador e ágil acrobata”, escrevendo Fernão Lopes :"Pelas suas qualidades, El-Rei amava-o muito e fazia-lhe generosas mercês." Mas o escudeira amava uma mulher, Catarina Tosse, esposa do Corregedor, uma mulher "briosa, louçã e muito elegante, de graciosas prendas e boa sociedade". Alegadamente para se aproximar da tal mulher, Madeira fez-se amigo do Corregedor, vindo depois a consumar a traição. 



    D. Pedro descobriu o delito e não perdoou “ o seu amado”, castigando-o brutalmente. O cronista refere enigmaticamente: "Como quer que o Rei muito amasse o escudeiro, mais do que se deve aqui dizer (...)", mas assinala que D. Pedro mandou "cortar-lhe aqueles membros que os homens em maior apreço têm". O escudeiro terá recebido assistência e sobrevivido, mas "engrossou nas pernas e no corpo e viveu alguns anos com o rosto engelhado e sem barba". Este amargo episódio, assim como outros semelhantes, mostram que nem sempre a justiça do soberano era correcta e leal, misturando diversas versas justiça com os seus humores e vontades. Está visto que o adultério alheio o irritava particularmente. Alheio, dado que estando já casado com Constança, continuava a namorar Inês de Castro. Mas isto eram coisas de rei, logo, sagradas.
     Voltando à justiça, sabendo que uma mulher era infiel ao marido, ordenava que a prendessem em flagrante e a queimassem de seguida, imediatamente. Ao amante era aplicada a pena de degola.



     Por processo semelhante, sofreu o bispo do Porto análogo castigo. Uma história curiosa, digo eu. Passando na Invicta Cidade, D. Pedro mandou chamar o bispo à sua presença, fechou-se com ele, ordenou-lhe que se despisse da cintura para cima e, interrogando-o, dispunha-se a espancá-lo exemplarmente. O escrivão, servindo-se do pretexto de entregar cartas ao rei inadiáveis, conseguiu entrar na câmara e distrair o “régio algoz” do desígnio.

     Por outro lado, em Avis, um fidalgo foi degolado por ter agredido um porteiro que fora a sua casa executar uma acção de penhora. Enforcado foi um escrivão do tesouro que desviara uma pequena quantia.

     Se a sua ânsia de deambular de terra em terra se devia ao seu gosto em contactar com o povo, por outro lado, o que o movia ardentemente era o seu desejo de levar justiça a todos os cantos. Ao mesmo tempo que aplicava a justiça, mostrava-se afável com os que o serviam.
     
    Bastantes vezes açoitava com as próprias mãos malfeitores que eram trazidos à sua presença; repreendia-os em tom desabrido, na sua “difícil elocução de gago”, ameaçando com o chicote enquanto interrogava.

Hábil político?

     No que diz respeito à nobreza, o monarca nada fez para travar os seus excessos e influências. Pelo contrário. De facto, aumentou as quantias que recebiam, a concessão de sucessivas mercês, engrandecimento de vários senhores, apontando um grande passo atrás relativamente à política de D. Afonso IV e D. Dinis.

     No que concerne à Igreja, D. Pedro não parecia afeiçoar-se ao clero português. Perseguiu-o. Todo um conjunto de medidas indica muito pouca simpatia com o clero quer regular, quer secular. A D. Pedro se deveu também o começo das nacionalizações das ordens religiosas militares ao investir o filho bastardo João no mestrado de Avis. Tal filho bastardo será mais tardiamente D. João I, mestre de Avis, rei de Portugal, pai da Ínclita geração. Ora a mãe de D. João não era, obviamente, D. Constança, mas sim uma dama galega, D. Teresa. Mais uma vez, não terá sido adultério, mas acto sagrado…

    Quanto a política exterior, o monarca auxiliou Castela contra Aragão, vindo-se a revelar um hábil estratega aquando de evitar querelas com os ingleses, apoiantes do monarca deposto em Castela. Realmente, neste campo o rei parece ter-se rodeado de bons conselheiros, mantendo o reino em paz no difícil jogo a que obrigavam as discórdias internas do país vizinho.

O humor de D. Pedro

     Como já referido, o monarca não era de perfeita saúde mental. Tinha um carácter desigual e excessivo. Desmesurado nos arrancos com que exercia a justiça (?), desmedido nas paixões, como no caso de Inês ou do pajem, exagerado nos júbilos quando o humor lhe pedia que descesse à praça e se “imiscuísse nas alegorias populares, bailando e tangendo com a arraia miúda”.
     


    De facto, dos reis portugueses terá sido aquele que mais inspirou novelistas e poetas. O seu feitio chocante, as taras que o governavam, o episódio de Inês, o castigo que infligiu aos alegados assassinos de Inês, entre outros.

     São também curiosas as descrições acerca das noites em que o assolavam terrores nocturnos, levando-o a deixar a câmara e a mandar reunir as gentes nas ruas para improvisar, a horas tardias, bailes e cantigas populares: se o rei não conseguia dormir, porque haveria os servos e a plebe de conseguir?    

     O povo gostava dele. Mas temia-o. Seduzia-o um rei que não desdenhava de se lhes juntar nas festas, que justiçava quer o poderoso, quer o pobre (não interessava muito se havia ou não justiça, desde que houvesse castigo…), assim como um rei que evitava a todo o custo guerras com o exterior.

O episódio do casamento

      Em 31 de Agosto de 1339, o ainda príncipe Pedro casa-se com Constança Manuel, nobre castelhana. No séquito da rainha, entre muitas mulheres está Inês de Castro, galega, filha do altamente poderoso Pedro Fernão de Castro.

D. Constança 

     Quando nasce o primeiro filho do casal, D. Luis, a rainha convida Inês para madrinha do príncipe recém-nascido. Segundo os preceitos Católicos, toda e qualquer relação carnal entre os pais da criança e os padrinhos deverá ser vista como  pecado do incesto. Ora o pequeno infante morre com uma semana e Inês começa a ser mal vista em Portugal. Efectivamente,  se a criança morreu devido ao pecado ninguém sabe, mas a verdade é que Pedro há muito que traía Constança com a galega Inês e já todo o reino falava do assunto. 

Inês de Castro

    Além do escândalo, às claras, da rainha andar a ser traída, os influentes irmãos de Inês de Castro há muito que circundavam o ainda príncipe Pedro, por forma a requisitar-lhe benefícios em favor de Castela.
    Todo este pecaminoso envolvimento entre Pedro e a galega estava a trazer grande constrangimento a Portugal, principalmente ao rei D. Afonso IV seu pai, dado estar a influenciar a política interna portuguesa, relativamente a reinos espanhóis. Desta forma, Afonso IV manda exilar Inês, a qual tinha já três filhos com o príncipe. Mas a influência sobre o príncipe não cessou e, em 1355, Afonso IV manda executar a galega Inês, por forma a fazer voltar à facção portuguesa o filho.



     Tal não acontece. D. Pedro revoltar-se-ia pelo menos duas vezes contra o pai e quando sobe ao trono não cessa a procura pelos alegados assassinos da galega, matando-os de forma estranha: manda arrancar os corações aos dois homens, sendo que a Pedro Coelho fê-lo pelo peito e a Álvaro Gonçalves pelas costas; depois, manda queimar ambos, em frente ao palácio, de modo a que o Soberano pudesse assistir enquanto almoçava.

     Anos mais tarde, em 1360, D. Pedro jura solenemente perante as Cortes que se havia casado com a galega Inês fazia nessa altura sete anos. Não se lembrava da hora, nem do dia, nem tão pouco do mês. Testemunhas? O rei traz à presença das Corte o bispo de Évora e Estevão Lobato, um criado do rei. Nenhuma das testemunhas sabia a dita data do casamento.

Ilustração relativa ao casamento mencionado pelo rei com a galega Inês

     Porém, a ser verdade, Inês seria igualmente rainha de Portugal. Como tal, conta a tradição popular que o rei manda desenterrar a rainha (Inês de Castro, entenda-se), procede à sua coroação, obrigando de seguida a que todos os nobres beijem a mão do cadáver há muito em decomposição.
    
Ilustração relativa ao rei e ao cadáver de Inês de Castro

    Facto é que ambos os corpos estão sepultados juntos, no Mosteiro de Alcobaça, em dois soberbos túmulos mandados erigir pelo soberano Pedro.

Túmulo de D. Pedro


Túmulo de Inês de Castro

     Quanto a Constança, a História nunca se preocupou muito com o que sucedeu à verdadeira e consagrada rainha de Portugal. Morreu no dia 13 de Novembro de 1345, diz o povo que de desgosto,  vergonha, tristeza e abandono. Dias antes, a 31 de Outubro tinha nascido o futuro rei de Portugal, D. Fernando. A rainha Constança nunca chegou a ver Pedro sentado no trono, morrendo com 27 anos. O seu túmulo está no museu do Carmo, em Lisboa.

D. Constança

     Para o futuro fica apenas a brilhante história de amor entre um formoso príncipe (louco) e uma linda dama galega. Permanece nos cânones por não lhes ter sido permitido continuar a relação. Não importam as razões, não importa quem foi traído, não importam as loucuras perpetuadas por este rei louco. Fica para a História como o rei cuja amada foi morta, o belo casal Pedro e Inês. 

 Fontes:
Ribeiro, A;  Saraiva, JH (2004) História de Portugal – A afirmação do País – da conquista do Algarve à regência de Leonor Teles, Volume 2, Quidnovi
Oliveira Marques, AH; Carneiro, R; Teodoro de Matos, A (2001) O milénio Português – Século XIV O tempo das Crises, Circulo de Leitores SA

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