Perdida na História

Perdida na História

sábado, 15 de dezembro de 2012

O último dos Condes de Portucale


      Decorria o mês de Fevereiro de 1017 quando o Conde Nuno Mendes, Conde de Portucale, ataca o rei de Galiza e Portugal. Os exércitos encontram-se em Pedroso, perto de Braga. O Conde conhece ali a morte e consigo leva toda uma dinastia de Condes de Portucale. Haveriam de passar largas décadas até se formar aqui um novo país, Portugal. Contudo, morre aqui o último conde de Portucale.

      A revolta do Conde coloca um ponto final a um longo e extenso período de apagamento a que o condado de Portucale havia estado sujeito durante décadas, sempre sujeito a vários “acidentes”  de sucessão, sempre a debilitar a autoridade dos seus detentores. Sempre em segundo (ou pior) lugar pelo rei de Leão em favor dos infanções, que entretanto se tinham tornado senhores das “terras”, esta revolta contra o rei Garcia II, que havia chegado há pouco tempo ao poder, marcou a diferença, apesar do exército de Nuno Mendes II ser muito mais escasso. O conde deixa apenas uma filha, que acaba por casar com o alvasil Sisnando de Coimbra.

Acidentes ou crime?

      Depois da morte violenta do conde Mendo Gonçalves de Portucale em 1008, sem se esclarecer se foi em combate ou assassinado, os seus sucessivos sucessores passaram a sofrer uma série de infortúnios que apenas chegam até à actualidade através de vagas notícias dos “Anais Velhos de Portugal”. Na verdade, suspeita-se que vários deles tenham morrido assassinados, principalmente aqueles que desapareciam, sendo depois noticiado que “haviam morrido num combate”. Tempos escuros aqueles… 

     Tais acções levaram a que o poder viesse a cair na mão de indivíduos de categoria inferior a conde ou mesmo na mão de mulheres, o que não era muito vulgar na altura, como foi o caso de Toda, viúva de Mendo Gonçalves, Ilduara Mendes, viúva de Nuno Alvites. Em contraste com todas estas desgraças, os chamados infanções, de categoria inferior, que se tinham estabelecido como senhores de “terras” menores, não cessavam de aumentar o seu poder e extrema riqueza. Por outro lado, o rei Fernando Magno terá também ele contribuído para tal, ao mesmo tempo que dava uma mãozinha para a decadência dos condes de Portucale, confiando apenas aos infanções, e não aos condes, funções de representação da sua autoridade e, a ser verdade, mediante uma “homenagem” feudal, permitia que representassem a sua autoridade como governadores de “terras”.

      O que parece ser facto é que a grande maioria dos condes de Portucale foram, simplesmente, desaparecendo aos poucos.

Estátua de Vímara Peres, o 1º Conde de Portucale (Porto, Portugal)

O rei de Galiza e Portucale

        O rei Garcia segue a mesma política do seu antecessor. Chegaram até à actualidade documentos que, a serem autênticos, atestam que alguns infanções da família de Ribadouro oferecem a Garcia algumas das suas herdades e outros, pelo contrário, recebem do rei algumas das suas propriedades, como terá sido o caso dos infanções Monio Viegas e Afonso Ramires, recompensando-os pela sua fidelidade. Os documentos significam que os condes de Portucale não contavam com o apoio real, nem grandes apoios ao reclamarem maior benevolência ao rei de Portugal e Galiza, rei Garcia. Infelizmente não é do conhecimento académico nenhum documento que explique o que levou à guerra aberta entre o conde Nuno Mendes II, descendente da família de Vímara Peres, e o rei Garcia II, uma revolta aberta que acabou com a confrontação armada nos campos de Pedroso, junto ao Mosteiro de Tibães. A tradição refere que, acaso Mendes II tivesse ganho, teria finalmente declarado as terras de Portucale independentes, sendo portanto o primeiro rei de Portugal.


O fim da Galiza

     O interesse mostrado por Garcia II para com o território portucalense do seu reino seria mais tarde interrompido pelos conflitos que estalaram entre ele e os seus irmãos. Primeiro terá sido com Sancho rei de Castela e com Afonso rei de Leão que acabam por se unir contra Garcia. De facto, Sancho vence Garcia, prende-o em Burgos. Libertado pouco tempo depois, Garcia refugia-se na corte do rei de Sevilha, seu tributário. Efectivamente, toda a família nadava em profundas lutas, D. Sancho ataca D. Afonso, sendo este vencido e exilado em Toledo, depois, D. Sancho é assassinado por um cavaleiro após atacar a irmã em Zamora, D. Urraca. É a vez de D. Afonso regressar, tomando em seu nome todos os reinos do seu pai.  Depois, atrai à corte Garcia que é de imediato preso, até à data de sua morte em 1090. D. Afonso VI dá, mais tarde, ao conde Sisnando, genro de Nuno Mendes II, as terras do falecido sogro, pensando-se tratar-se de Nogueira, Santa Tecla, Dadim, Cerqueda, Gualtar, Barros e porventura ainda outras.

      No que diz respeito a Portucale, os documentos portucalenses da época mostram haver uma grande veneração por parte dos nobres portucalenses por este D. Afonso VI, outrora de Leão, agora rei de todos os reinos. Além disso, a rápida aceitação da sua política eclesiástica, que repudiava a liturgia hispânica e obrigava à romana, a obediência a bispos de origem estrangeira,  a submissão a príncipes igualmente estrangeiros como é o caso de D. Raimundo e de D. Henrique e a adopção de costumes monásticos cluniacenses, são sinais da alta fidelidade dos nobres de Portucale para com D. Afonso IV. Se assim não fosse, muitos eram os motivos para um novo motim.  

Henrique de Borgonha e a esposa, D. Teresa, filha de Afonso VI.

      O que é facto é que nos anos seguinte a grande rivalidade entre Galiza e Portucale não cessa, funcionando muitas vezes como uma guerra fria, primeiro a nível eclesiástico, com ferozes rivalidades entre Compostela e Braga, depois entre as famílias nobres de Portucale e os condes de Trava, vindo mais tarde a sussurrarem-se muitas intrigas e traições à volta de D. Teresa, futura mãe de D. Afonso Henriques, filha de Afonso VI.
      Só em 1094 o condado Portucalense conhece uma história diferente, na pessoa de Henrique de Borgonha, conde de Portucale. 

D. Henrique, conde de Portucale


Fontes

Oliveira Marques, AH; Carneiro, R; Teodoro de Matos, A (2001) O milénio Português – Século XIV O tempo das Crises, Circulo de Leitores SA
José Matoso (s/d) " A Nobreza medieval portuguesa no contexto ibérico"

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