Perdida na História

Perdida na História

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O incêndio

Decorria o ano de 64 dC quando um incêndio violento e de proporções catastróficas deflagra em Roma, varrendo descontroladamente a cidade, durante uma semana. O impacto do acontecimento é tal que se começam a ouvir sussurros: o imperador é o incendiário.

      A metrópole romana é barbaramente dizimada. Se a grande aplitude do desastre vem a justificar a notoriedade deste sinistro, a sua fama até aos dias de hoje prende-se sobretudo com dois acontecimentos: aquele que é apontado como culpado -um imperador e aqueles que efectivamente "cumprem a pena"- os seguidores de uma pequena seita religiosa: cristãos.

Um inferno na Terra

      Na noite de 18 para 19 de Julho os armazéns situados perto do Circo Máximo começam a arder, inexplicavelmente. Atiçadas por um vento também ele violento, as chamas sobem na direcção do Palatino, descendo depois até aos bairros do Quirinal, Vimial e Esquilino.
      Acordados no meio do inferno, os habitantes enlouquecidos, ter-se-ão espalhado pela cidade numa confusão indescritível, tentando desenfreadamente salvar a vida, familiares, haveres.



      Desengane-se quem pense que já na altura não existiam "bombeiros". Os vigias, soldados encarregados da prevenção e extinção de incêndios, são totalmente incapazes de controlar o sinistro incêndio que teima em não diminuir, tanto pela inebriante escuridão da noite como pela insana multidão que impede os vigias de trabalhar.

Fénix

      Durante 7 noites, durante 6 dias, o incêndio simplesmente não diminui de intensidade. Sempre que as autoridades o dão por extinto, renasce qual Fénix noutro quarteirão com igual fúria e ferocidade.
      Ao nono dia, extingue-se finalmente aquele que poderá ter sido um dos maiores incêndios da Antiguidade. As pessoas vêem finalmente o que as rodeia: apenas e só cinzas e ruínas. Roma, tal como a conheciam antes, não existe. Efectivamente, das catorze regiões de Roma, apenas quatro não registaram a passagem do inferno. As outras dez, foram totalmente ou parcialmente destruídas.

     


      Não existe conhecimento acerca do número de vítimas mortais ou feridas. Quanto aos desalojados, fontes da época apontam para "Duzentos mil romanos sem tecto, sem abrigo".



Destruição

      Os bairros arrendados onde moravam centenas de famílias foram os mais afectados. Mas não só. Monumentos e Templos venerados pelos romanos eram agora escombros. Todas as obras de arte trazidas da Grécia e do Oriente deixaram de existir, assim como centenas de manuscritos e obras também se perderam com o incêndio das bibliotecas públicas.



Culpado?

      Se no início parece algo casual, com o avançar dos dias, com o avançar dos reacendimentos, a população deixa de acreditar na Natureza como responsável pela tragédia. Querem respostas e, acima de tudo, querem um culpado. Depoimentos daquela altura relatam terem visto homens a lançar tochas acesas para dentro de casas. Não demora muito até o povo apontar Nero, o imperador como o responsável por toda aquela insanidade.




Motivo?

      Nero nunca escondera o seu desejo de construir, de raiz, uma nova Roma. Nova. Resplandecente. Uma Roma à sua altura. Desta forma, diversos indivíduos acusam-no de ter lançado chamas à sua própria capital, por forma a ver-se livre dos velhos e decrépitos bairros; mais sinistro é uma outra versão avançada por políticos próximos do próprio Imperador: Nero teria feito tal com o intuito de arranjar inspiração para a sua nova epopeia "A Tomada de Tróia!" .




      Se por um lado Nero era absolutamente lunático e perturbado, era também verdade que tinha bastantes inimigos. Quem sabe se não teria sido um deles a lançar o inferno sobre a sua capital, por forma a acusá-lo? Os boatos eram cada vez mais fortes no Império que nunca se coibiu de assassinar um Imperador e nomear outro. Nero necessitou, então, de estabelecer um culpado credível.
     
      A população desta antiga Roma é igual a qualquer população da actualidade: com a acusação oficial contra uma pequena seita religiosa, os cristãos, a vindicta popular apazigua-se rapidamente. De facto, os rituais misteriosos desta seita estranha podem muito bem ter irado os verdadeiros deuses titulares de Roma.  

Eficácia e Loucura

      Cerca de duzentos individuos pertencentes ao cristianismo são presos e executados. Tudo poderia ter terminado por aqui se estivesse a escrever sobre um soberano de mente sã. Efectivamente, esta acção torna-se num martírio colectivo visto que, transformados em tochas humanas, os condenados servem para iluminar as festas oferecidas por Nero ao povo.

Seria mesmo culpado?

      Na actualidade não existe qualquer prova acerca da culpabilidade de Nero. Os factos são que o incêndio teve início nos armazéns de trigo e azeite, assim como ficou claramente registado o grande auxílio de um vento extraordinariamente forte. A juntar a estes dois factos, fica também a evidência daquilo que era já recorrente nos Verões romanos: reduzidas reservas de água.
      Aquilo que suscita dúvida serão mesmo os reacendimentos constantes. Se alguém se terá aproveitado da situação, não existem provas.

      Quanto a Nero, este estava em Anzio aquando do começo do fogo (teria mandado outra pessoa colocar fogo nos armazéns?), assim como o incêndio também afectou a sua luxuosa habitação: a Domus Transitória,também ardia e com ela as suas valiosas colecções de arte e joias. Sendo assim, como surge a ideia da culpa de Nero? Os relatos de Tácito (historiador, orador e político romano) afirmam que "havia rumores de que Nero ficou cantando e tocando lira enquanto a cidade queimava".  Mais tarde, escrevem-se versões absolutamente diferentes: o imperador andou juntamente com os vigias a tentar acalmar o fogo. Qual a versão verdadeira?


Nero, filme Quo Vadis


      O que efectivamente não é tão divulgado é a forma como Nero lidou com os desalojados. De forma populista ou não, o Imperador terá mandado abrir o Campo de Marte - local onde as legiões estão- bem como os seus jardins privados por forma a alojar todos os desalojados. Por outro lado, terá organizado uma cadeia logística para abastecer o povo de comida, tendo descido o preço do trigo para um valor muito baixo, acessível a toda a gente.

      Quanto às suas ideias urbanísticas, Nero veio, realmente, a empreender um ambicioso projecto que acabou por beneficiar a população e, em vez de aumentar os impostos nas Províncias, o Estado contribuiu quer com dinheiro, quer com materiais para a reconstrução da capital. Por outro lado, verificou-se o desenvolvimento de uma mentalidade de prevenção: por decreto, as casas de vários andares passaram a ter, no máximo, cinco andares; passaram a ser construídas em pedra e tijolo com espaço entre si; em cada casa passa a ser obrigatório material contra incêncios como areia, mantas e água. Por outro lado, os carros que transportavam para Roma as provisões alimentares deveriam levar de retorno os escombros que seriam depositados nos pântanos de Óstia, acabando-se assim com os focos de malária.




      O que resulta deste acontecimento e fica para a posteridade é a fama de pirómano com que Nero fica rotulado, assim como a grande impulsão que fornece a uma insignificante seita religiosa que, mais tarde, vem alterar todo o rumo do Império.




      Quanto ao imperador, algumas fontes apontam que terá sido assinado por um dos seus escravos, com quem tinha uma relação, outros apontam o suicídio. No dia 6 de Junho de 68 dC Nero desaparece,  colocando um ponto final  na dinastia Julio-Claudiana.

Fontes:
http://www.canaldehistoria.pt/hoyenhistoria/202/O-incêndio-de-Roma
Astier et al, (2000), Memória do Mundo, Cículo de Leitores

1 comentário:

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    Abraços,

    Ale.
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