Perdida na História

Perdida na História

domingo, 20 de outubro de 2013

Um conquistador chamado Hernán Cortés



A 13 de Agosto de 1521, no final de um cerco que dura há 79 dias, Hernán Cortés, enviado de Espanha, apodera-se de Tenochtitlán, a capital do Império Azteca. O mundo Americano não voltará a ser o mesmo.

O regresso dos deuses?

     Inesperadamente, o conquistador espanhol e os seus respectivos homens são recebidos no espaço que é agora o México, com imensa alegria e esperança por parte do povo nativo, em 1519. A causa? Um mito Azteca falava que o deus civilizador que outrora teria ido para muito longe, viria um dia, pelos oceanos, para junto do seu povo, trazendo glória e toda a Paz para o seu povo. Desta forma, aquando da chegada de Cortés e dos seus 600 homens, o Imperador Moctezuma II, suprasacerdote religioso azteca, mais religioso do que político, recebe o espanhol tal como faria a um deus pródigo: cobre-o de honras. Cobre-o de presentes. O seu deus tinha chegado.



     Possivelmente incrédulo, Cortés não nega tal hospitalidade, pelo contrário, facilita bastante o atingir do seu objectivo: obtém do azteca o reconhecimento da soberania por parte de Carlos e, em breve, o "deus" espanhol coloca o local sob tutela e exerce o poder por intermédio do imperador. 


Cortés

"La noche triste"

     Um começo que poderia prometer tudo de bom para o povo azteca, torna-se um pesadelo. Secretário do governador de Cuba, Diego Velázquez, Cortés abandonara Cuba para se lançar na expedição militar contra o México em 1518, sem que Diego seu chefe lhe tivesse dado autorização para tal. Por isto, é declarado rebelde, e um grupo espanhol comandado por Pánfilo de Narváez é enviado contra ele. 

     Deixando o seu lugar tenente Pedro de Alvarado e uma pequena guarnição em Tenochtitlán, Cortés volta à costa e facilmente vence Narváez. porém a situação transforma-se no seu regresso a Tenochtitlán. Alvarado havia massacrado a nobreza azteca no Templo da capital, a 23 de Maio de 1520. A revolta popular era massiva. A chegada de Cortés não acalma os ânimos e enquanto Moctezuma II tenta apelar à reconciliação é mortalmente atingido por algo. fontes referem ter sido uma pedra arremessada por um popular em fúria, outras fontes referem uma espadeirada disferida por um espanhol. O certo é que o Imperador Azteca morre. 



     No decurso dos seguintes combates, Cortés perde metade dos homens: tem de decidir pela evacuação de Tenochtitlán. É "la noche triste" de 30 de Junho para 1 de Julho de 1520. 

Vingança, vingança, vingança.

     Cortés regressa. No dia 7 de Julho consegue uma grande vitória sobre os aztecas em Otumba, após reorganizar as suas tropas: a larga minoria espanhola é auxiliada por um forte componente bélico, aço contra madeira, bestas contra arco e flechas e cavalos que permitiam uma mobilidade incomparável. Graças ao descanso que esta vitória lhe traz, Cortés encaminha os seus homens para o reino vizinho de Tlaxcala, que submetera em 1519 antes de penetrar no reino azteca e que lhe fica fiel por ódio ao Império Azteca. Nos meses seguintes, Cortés refaz calmamente as suas forças militares, assim como recebe novo armamento de Cuba e da Jamaica. 



      Dirige-se novamente a Tenochtitlán onde uma epidemia de varíola, introduzida por um escravo negro da sua escolta, dizima a população. No últimos dias de Dezembro torna-se senhor do lago sobre o qual a cidade está construída, começando o verdadeiro cerco em 26 de Maio de 1521. 650 soldados de infantaria, 194 mosqueteiros e fundibulários, 84 cavaleiros, algumas peças de artilharia e auxiliares índios em grande número participam na operação; 13 navios rápidos (bergantins) controlam as águas do lado. A 16 de Junho é feito um primeiro assalto à cidade, cuja já não tinha acesso a água potável. Apesar de não ter tido um sucesso a 100%, a pouco e pouco conseguem tomar todos os bairros da cidade, que vão arrasando à medida que passam, a fim de evitarem a resistência de lançadores de pedras colocados em cima do telhado. 
     A 13 de agosto de 1521 o imperador Cuauhtémoc é feito prisioneiro. Vai ser executado anos mais, tal como o Império Azteca. 

Lago sobre o qual a cidade está construída

Continuar.

     Dominado o Imperador Azteca, Cortés lança outras expedições, desta vez em direcção ao Sul, por forma a anexar territórios de Yucatán, Honduras y Guatemala.

     Os detalhes da conquista do território agora denominado México, assim como os argumentos que justificavam as decisões de Cortés, foram expostos nas quatro Cartas de relación que enviou ao rei espanhol.

Cortés em Espanha

     Em 1522, Cortés foi nomeado governador e capitão geral da Nueva España (nome dado ao actual México). Contudo, a coroa espanhola neste momento tentou implementar medidas por forma a reduzir os poderes entregues aos chamados “Conquistadores”. Assim, em 1528, funcionários reais apareceram na Nueva españa por forma a começarem a dividir a autoridade de Cortés, até à sua completa destituição do cargo, quando é enviado para Espanha.
     Em Espanha, consegue sair absolvido de toda e qualquer acusação, sendo ainda nomeado Marquês do Valle de Oaxaca, assim como mantém o cargo honorífico de Capitão Geral, apesar de não ter  funções governativas.



Continuar a vida antiga

     De volta ao México em 1530, cortés volta a organizar expedições de Conquista, onde tenta incorporar a Baixa California ao México. Novamente de regresso a Espanha, tenta obter favores como pago de todos os serviços prestados, pelo que acaba por conseguir uma expedição contra Argel, em 1540, apesar das suas exigências nunca terem tido completo atendimento.

As preocupações de Cortés


     Cortés escolhe uma população próxima de Sevilha para se aposentar. Reúne com frequência uma tertúlia literária e humanística, onde são discutidos diversos assuntos, como a religião. Apesar de todos os seus selváticos crimes, Cortés era um fervoroso católico com preocupações morais interessantes, tais como se seria ou não legítimo escravizar um índio...
     

domingo, 1 de setembro de 2013

Um Hospital com 1000 anos

Notícia

     Foi noticiada a descoberta de um hospital das Cruzadas em Jerusalém com cerca de 1000 anos. 
      Segundo o site noticioso, "o espaço era altamente movimentado, encontrava-se dividido por tipos de doenças e patologias e tinha uma capacidade máxima para 2.000 pacientes. (...) Datado do período de 1099 d.C. (ano em que os Cruzados chegaram às muralhas de Jerusalém) até 1291 d.C., o edifício escondia-se sob um mercado abandonado de produtos hortícolas, numa área conhecida como Muristan."

      O que até agora foi descoberto corresponde àquilo que se pensa ser uma pequena porção daquilo que o hospital terá sido, pensando-se que poderia ter cerca de 15 mil metros quadrados. A pesquisa actual centrou-se sobretudo em "documentos contemporâneos, maioritariamente escritos em latim." 


     Dois dos intervenientes na descoberta, Renne Forestany e Amit Reem, referem que "os textos dão conta de um "sofisticado hospital construído por uma ordem militar cristã chamada 'Ordem de San Juan do Hospital em Jerusalém', cujos membros se dedicavam ao cuidado e atendimento de peregrinos na Terra Santa"."
 


      Contudo, o mais impressionante relaciona-se com os depoimentos da época, que dão a conhecer a precária saúde e os escassos conhecimentos na área da medicina e/ou higiene. " Um dos relatos, por exemplo, é de um médico que conta que amputou a perna de um cavaleiro por uma pequena ferida infectada, levando o paciente à morte."

    Para mais informações sobre a notícia, consultar o site oficial da Autoridade de Antiguidades de Israel: http://www.antiquities.org.il/article_Item_eng.asp?sec_id=25&subj_id=240&id=2016&module_id=#as

Fontes:

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Notícia: A descoberta do (possível) esqueleto de Ricardo III

    Foi noticiado esta semana a descoberta dos restos mortais de Ricardo III de Inglaterra. Ao contrário do que se pensava, Ricardo III vem a aparecer enterrado num local, agora um parque de estacionamento, e não numa capela religiosa, como até aqui se acreditava. 

Ricardo III

    Os responsáveis pela descoberta, que terá ocorrido no ano passado, terão analisado os restos ósseos, podendo confirmar algumas doenças associadas ao monarca, assim como terão procedido à análise de DNA, informação genética, comparando com um reconhecido parente, vivo, do monarca. 

    Já aqui neste blogue falei acerca deste monarca que, de certa forma, acaba por ter um papel importante no desenrolar da História e sucessão inglesa. A saber, foi mencionado no tema ""Titulus regius", Blaybourne e o Mistério Tudor" ( http://perdidanahistoria.blogspot.pt/2011/12/titulus-regius-blaybourne-e-o-misterio.html).


No que diz respeito à notícia, aqui ficam alguns sites onde esta se encontra na íntegra:






Fontes:
http://perdidanahistoria.blogspot.pt/2011/12/titulus-regius-blaybourne-e-o-misterio.html

 http://sol.sapo.pt/inicio/Vida/Interior.aspx?content_id=67572
 http://www.telegraph.co.uk/history/9540207/Richard-III-skeleton-reveals-hunchback-king.html
 http://www.telegraph.co.uk/history/9745893/Carpark-skeleton-will-be-confirmed-as-Richard-III.html


sábado, 2 de fevereiro de 2013

Ptolomeu e Duarte Lopes: do imaginário à realidade

Cerca de três séculos antes da descoberta da nascente do rio Nilo, um homem noticia pela primeira vez na História os lagos imaginados por Ptolomeu, revelando um dos mais velhos segredos ao Mundo. Duarte Lopes era português e no século XVI fez História. 

     Decorria o ano de 1591 e um livro causa grande sensação quer em Roma, quer em toda a Europa. O livro era "Relatione del Reame di Congo et delle Circonvicine Contrade", escrito por Fillipo Pigafetta, ditado por Duarte Lopes, que miraculosamente viveu naquele reino da África Ocidental durante seis anos. Não era mito, tinha acontecido.
     O livro era um tesouro de descrições dum reino só imaginado pelos europeus, dando a conhecer terras e gentes, desmistificando ideias e mitos tão antigos como o tempo.  



O reino do Congo

Desconhecido? Nem tanto...

     A verdade é que, à data da viagem de Duarte Lopes, o Congo já não era desconhecido para os portugueses. Quase cem anos antes, em 1483, as caravelas de Diogo Cão haviam já explorado a foz do rio Congo, ou Zaire, o segundo maior de África, a seguir ao Nilo. Regressaram no ano seguinte, tendo subido da foz às cataratas de Livingstone, deixando preventivamente os seus nomes gravados numas rochas junto ao rio.

     Em 1490, Portugal envia uma nova expedição, estabalecendo desde aí relações amistosas com aquele povo, cujos reis se convertem ao Cristianismo, passando a adoptar os nomes de João e Leonor, em homenagem aos reis portugueses. No anos seguintes, os reis do Congo enviam os seus dois filhos para Lisboa com a finalidade de aprenderem português e se "instruírem nos ensinamentos da boa fé".  Portugal não perde a oportunidade, envia para o território franciscanos, dominicanos ou agostinhos com a finalidade de evangelizar e/ou comerciar, estabelecendo-se em São Salvador do Congo, ou Banza, a capital daquele reino. 





Rei João, do Congo

Entreajuda fora da Europa

     Os governos portugueses e do Congo eram já bastante amistosos, daí que não seja de estranhar que Portugal fosse em auxílio desta Nação aquando de necessidade. Em meados do século XVI, os jagas invadem e mudam o rumo ao Congo. 

"Era gente cruel e homicida, de grande estatura e de semblante horrível, nutrindo-se de carne humana, feroz a combater e de ânimo valeroso (...)selvática nos costumes e no viver do dia-a-dia."

     Estes povos partiram da nascente do rio Congo em direcção a oeste, invadindo Lunda, o Congo e parte de Angola, espalhando o horror entre os povos. Foram detidos pelos portugueses, chamados em auxílio de D. Afonso, rei do Congo. 
     Desta forma, quando Duarte Lopes chega ao Congo, em finais de 1578, estavam já bem cimentadas as relações entre Congo e Portugal, apesar deste reino africano apenas ainda fazer parte do imaginário fantástico europeu...



A estadia de Duarte Lopes

     O explorador estabelece-se em Banza, a cidade real, a "150 milhas do mar", onde na altura viveriam cerca de 100 mil pessoas. Dentro das muralhas. ficava a Cidade dos Portugueses e os paços reais, construídos à volta da Igreja principal de Santa Cruz. Nesta cidade, Duarte Lopes terá vivido cerca de seis anos, em que durante esse tempo terá conhecido quase todo o reino que ocupava, naquela época, grande parte do norte de Angola. 

O livro

      Quando descreve a Filippo, Duarte refere-se às seis províncias congolesas: Bamba, Sonho, Sunde, Pango, Bata e Pemba. Descreve os hábitos dos indígenas, as suas formas de vestir, a sua História, os seus produtos e os animais que povoavam a região. 







     Fantasia ou não, o facto é que algumas descrições do livro de Filippo parecem mesmo saídas de uma mitologia. De facto, o capítulo referente às amazonas do reino de Monomotapa é considerado por alguns especialistas como inverosímel, juntamente com o excerto relativo aos anziques. Este povo, que habitava as terras a norte do Congo, teria pouco contacto com as restantes tribos, pelo que tudo o que se contava sobre os seus costumes seriam apenas conjecturas, segundo o próprio Duarte Lopes.

      Contudo, os relatos de Filippo referem que os anziques teriam "açougues de carne humana, como nós aqui de vaca (...), porquanto comem os inimigos que cativam na guerra; e os seus escravos vendem-nos, se podem obter melhor preço; se não, entregam-nos aos magarefes, que os cortam em peças e vendem para assar ou cozer." Se por um lado os relatos de Filippo parecem particularmente fiéis àquilo que os portugueses descreviam na Europa, e mesmo aos relatos de Duarte Lopes, estas partes do livro "Relatione(...)" parecem povoadas de imaginação a mais, levando alguns autores a acreditar que, talvez, Filippo tenha pretendido tornar o seu livro mais ambicioso e particularmente atractivo. De facto, aquando do lançamento, o livro torna-se um fenómeno, sendo traduzido e reeditado em múltiplas línguas. 






 Duarte Lopes desaparece

      Já em 1586, Duarte Lopes chega a San Lúcar de Barrameda, na foz do Guadalquivir, seguindo para Sevilha , na época um crucial centro de comércio, onde diversos cartógrafos portugueses se haviam estabelecido.  Dali, parte para Portugal e depois para Madrid, para a corte de Filipe II de Espanha, I de Portugal.  Usando o "hábito de burel grosseiro" dos peregrinos, cumprindo um voto feito durante a viagem, parte para Roma em 1589, com a finalidade de transmitir a Sisto Vos recados do rei do Congo, que pedia que lhe fossem enviados missionários para não deixar esmorecer a fé Católica. É nesta viagem a Roma que Duarte conhece Filippo, e lhe descreve as maravilhas que terá testemunhado no Congo imaginado por Ptolomeu. Duarte vira com os seus próprios olhos os grandes lagos. 

Missionários em África

     Nesse mesmo ano, Duarte Lopes abandona Roma, desejoso de voltar para África. Em Madrid, redige um relatório da sua permanência no Congo, citado por Ilídio Amaral, abundante em informações sobre comércio de escravos, de importância vital na economia de então. A partir deste momento, Duarte Lopes desaparece na História, perdendo-se-lhe o rasto para sempre. 


Estátua de Duarte Lopes, Portugal


Fontes:
Baseado nos textos de Rosário Sá Coutinho, (2003), National Geographic
http://www.euacontacto.com/cultura-e-entretenimento/3693-grandes-portugueses.html

sábado, 15 de dezembro de 2012

O último dos Condes de Portucale


      Decorria o mês de Fevereiro de 1017 quando o Conde Nuno Mendes, Conde de Portucale, ataca o rei de Galiza e Portugal. Os exércitos encontram-se em Pedroso, perto de Braga. O Conde conhece ali a morte e consigo leva toda uma dinastia de Condes de Portucale. Haveriam de passar largas décadas até se formar aqui um novo país, Portugal. Contudo, morre aqui o último conde de Portucale.

      A revolta do Conde coloca um ponto final a um longo e extenso período de apagamento a que o condado de Portucale havia estado sujeito durante décadas, sempre sujeito a vários “acidentes”  de sucessão, sempre a debilitar a autoridade dos seus detentores. Sempre em segundo (ou pior) lugar pelo rei de Leão em favor dos infanções, que entretanto se tinham tornado senhores das “terras”, esta revolta contra o rei Garcia II, que havia chegado há pouco tempo ao poder, marcou a diferença, apesar do exército de Nuno Mendes II ser muito mais escasso. O conde deixa apenas uma filha, que acaba por casar com o alvasil Sisnando de Coimbra.

Acidentes ou crime?

      Depois da morte violenta do conde Mendo Gonçalves de Portucale em 1008, sem se esclarecer se foi em combate ou assassinado, os seus sucessivos sucessores passaram a sofrer uma série de infortúnios que apenas chegam até à actualidade através de vagas notícias dos “Anais Velhos de Portugal”. Na verdade, suspeita-se que vários deles tenham morrido assassinados, principalmente aqueles que desapareciam, sendo depois noticiado que “haviam morrido num combate”. Tempos escuros aqueles… 

     Tais acções levaram a que o poder viesse a cair na mão de indivíduos de categoria inferior a conde ou mesmo na mão de mulheres, o que não era muito vulgar na altura, como foi o caso de Toda, viúva de Mendo Gonçalves, Ilduara Mendes, viúva de Nuno Alvites. Em contraste com todas estas desgraças, os chamados infanções, de categoria inferior, que se tinham estabelecido como senhores de “terras” menores, não cessavam de aumentar o seu poder e extrema riqueza. Por outro lado, o rei Fernando Magno terá também ele contribuído para tal, ao mesmo tempo que dava uma mãozinha para a decadência dos condes de Portucale, confiando apenas aos infanções, e não aos condes, funções de representação da sua autoridade e, a ser verdade, mediante uma “homenagem” feudal, permitia que representassem a sua autoridade como governadores de “terras”.

      O que parece ser facto é que a grande maioria dos condes de Portucale foram, simplesmente, desaparecendo aos poucos.

Estátua de Vímara Peres, o 1º Conde de Portucale (Porto, Portugal)

O rei de Galiza e Portucale

        O rei Garcia segue a mesma política do seu antecessor. Chegaram até à actualidade documentos que, a serem autênticos, atestam que alguns infanções da família de Ribadouro oferecem a Garcia algumas das suas herdades e outros, pelo contrário, recebem do rei algumas das suas propriedades, como terá sido o caso dos infanções Monio Viegas e Afonso Ramires, recompensando-os pela sua fidelidade. Os documentos significam que os condes de Portucale não contavam com o apoio real, nem grandes apoios ao reclamarem maior benevolência ao rei de Portugal e Galiza, rei Garcia. Infelizmente não é do conhecimento académico nenhum documento que explique o que levou à guerra aberta entre o conde Nuno Mendes II, descendente da família de Vímara Peres, e o rei Garcia II, uma revolta aberta que acabou com a confrontação armada nos campos de Pedroso, junto ao Mosteiro de Tibães. A tradição refere que, acaso Mendes II tivesse ganho, teria finalmente declarado as terras de Portucale independentes, sendo portanto o primeiro rei de Portugal.


O fim da Galiza

     O interesse mostrado por Garcia II para com o território portucalense do seu reino seria mais tarde interrompido pelos conflitos que estalaram entre ele e os seus irmãos. Primeiro terá sido com Sancho rei de Castela e com Afonso rei de Leão que acabam por se unir contra Garcia. De facto, Sancho vence Garcia, prende-o em Burgos. Libertado pouco tempo depois, Garcia refugia-se na corte do rei de Sevilha, seu tributário. Efectivamente, toda a família nadava em profundas lutas, D. Sancho ataca D. Afonso, sendo este vencido e exilado em Toledo, depois, D. Sancho é assassinado por um cavaleiro após atacar a irmã em Zamora, D. Urraca. É a vez de D. Afonso regressar, tomando em seu nome todos os reinos do seu pai.  Depois, atrai à corte Garcia que é de imediato preso, até à data de sua morte em 1090. D. Afonso VI dá, mais tarde, ao conde Sisnando, genro de Nuno Mendes II, as terras do falecido sogro, pensando-se tratar-se de Nogueira, Santa Tecla, Dadim, Cerqueda, Gualtar, Barros e porventura ainda outras.

      No que diz respeito a Portucale, os documentos portucalenses da época mostram haver uma grande veneração por parte dos nobres portucalenses por este D. Afonso VI, outrora de Leão, agora rei de todos os reinos. Além disso, a rápida aceitação da sua política eclesiástica, que repudiava a liturgia hispânica e obrigava à romana, a obediência a bispos de origem estrangeira,  a submissão a príncipes igualmente estrangeiros como é o caso de D. Raimundo e de D. Henrique e a adopção de costumes monásticos cluniacenses, são sinais da alta fidelidade dos nobres de Portucale para com D. Afonso IV. Se assim não fosse, muitos eram os motivos para um novo motim.  

Henrique de Borgonha e a esposa, D. Teresa, filha de Afonso VI.

      O que é facto é que nos anos seguinte a grande rivalidade entre Galiza e Portucale não cessa, funcionando muitas vezes como uma guerra fria, primeiro a nível eclesiástico, com ferozes rivalidades entre Compostela e Braga, depois entre as famílias nobres de Portucale e os condes de Trava, vindo mais tarde a sussurrarem-se muitas intrigas e traições à volta de D. Teresa, futura mãe de D. Afonso Henriques, filha de Afonso VI.
      Só em 1094 o condado Portucalense conhece uma história diferente, na pessoa de Henrique de Borgonha, conde de Portucale. 

D. Henrique, conde de Portucale


Fontes

Oliveira Marques, AH; Carneiro, R; Teodoro de Matos, A (2001) O milénio Português – Século XIV O tempo das Crises, Circulo de Leitores SA
José Matoso (s/d) " A Nobreza medieval portuguesa no contexto ibérico"

sábado, 8 de dezembro de 2012

A mulher, o cerco e o cavalo.


   No século XII aC, após uns longos dez anos de cerco, a cidade de Tróia na Ásia Menor desmorona-se sob os ataques de uma coligação grega. Lenda ou realidade, perdura como mistério, mas a queda da cidade subsistirá durante séculos na memória quer de Gregos, quer de Latinos. Porém, descobertas dos último anos trazem à luz provas de que Tróia poderá ter sido mais do que lenda.



     Cenas de massacre e devastação, um pânico que se apoderou dos habitantes assim que os sitiadores entraram na cidade, invadindo habitações, palácios, reduzem os templos a escombros e cinza. São vistos gigantescos incêndios, tais são os episódios e memórias que os Antigos guardavam no seu espírito durante séculos, símbolos do horror da guerra.

Páris, o sobrevivente

     Príamo, rei de Tróia havido tido mais um filho com sua esposa, Hécuba: Páris. Diz a lenda que quando Páris nasceu, uma sacerdotisa haverá dito a Príamo que a criança deveria ser imediatamente morta, caso contrário, viria a destruir toda a cidade…
     Por forma a impedir a profecia, os pais de Páris abandonam a criança fora das muralhas da cidade, com o intuito da criança morrer, longe. Contudo, o destino ter-lhe-á dado uma oportunidade e o bebé é descoberto por pastores, entre os quais cresceu,  lá bem longe, nas colinas do monte Ida. Quando homem, casa-se com Enone, camponesa da região.

    Anos mais tarde, Páris regressa a Tróia por forma a competir nos jogos da cidade, tendo sido reconhecido pela família real. Coberto de profundo remorso, o soberano acolhe de imediato o seu filho, tornando-o de imediato embaixador de Tróia


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     Durante uma sua expedição como embaixador a Esparta, Páris não consegue um encontro com o soberano local, Menelau que se encontrava ausente. Pelo contrário, encontra Helena.

Helena, Ulisses e um cavalo

     Na origem da luta impiedosa que opõem os gregos aos troianos, contam as fontes que terá existido um romance: Páris rouba a estonteante e bela Helena, esposa do rei Menelau.

    Rei sem esposa, vergonha pela certa, dado esta ter sido “raptada” pela sua própria vontade, não fosse Páris também ele um belo exemplar troiano…Para vingar a honra de Menelau, Agamémnon seu irmão reúne uma verdadeira irmandade de vários povos gregos, vindos de diferentes Cidades - Estado. Sob o seu comando, Tróia ficará cercada.



    Não terá sido só em Esparta que Páris causaria estragos: em Tróia, Páris renega Enone e o seu filho, tendo os dois de fugir, de novo, para as montanhas. Diz a lenda que terá sido a estupidez de Páris que, afinal, acabaria por salvar a vida quer a Enone, quer ao filho de ambos, Corito.





     Porém, voltando ao assunto da invasão grega, a construção das muralhas da cidade era de tal forma perfeita (atribuída a Poseidon) que os diversos assaltos dos sitiadores não lhe alteram a estrutura. Durante dez anos, frente à impenetrável muralha, nenhum dos heróis gregos – Ulisses, Nestor, os dois Ajax- conseguem produzir qualquer efeito na fortaleza. O futuro parecia eternamente longo, tendo pela frente apenas e só… a muralha.



      Desta forma, o mais astucioso dos gregos, Ulisses, tem a ideia de camuflar a entrada na desejada cidade, construindo um fabuloso cavalo, monstruosamente grande, com lugares para centenas de guerreiros no seu interior. Outros, porém, começavam a abandonar o exterior da muralha, para incredulidade troiana. No final, o que resta no exterior do recinto é o vazio. E um presente dos gregos. Um cavalo, um espectacular cavalo de madeira, tão grandioso que só Tróia se lhe compara. O cavalo é trazido para dentro das muralhas, para o seio da cidade.




     Diz a lenda que durante a noite os soldados escondidos no interior  da estátua saem para a escuridão da noite, abrindo as portas da cidades para os restantes soldados gregos que, afinal não se tinham retirado. Entram numa cidade adormecida e não vigiada, afinal, o perigo já tinha passado…




Aniquilação total: o nascimento de uma lenda

     Para os troianos, dispersos nas suas casas, adormecidos, indefesos e desarmados, a resistência é impossível. Enquanto inúmeros incêndios deflagram em vários pontos da cidade, os gregos entram nas casas, roubam tudo, matam, massacram.

“Nas ruas obscuras, os homens são mortos, as mulheres feitas prisioneiras.”




     Também o palácio do rei Príamo é invadido: Cassandra, a filha do rei, é arrancada do altar de Atena onde se tinha refugiado, tornando-se presa de Agamémnon; já a sua cunhada, Andrómaca, diz a lenda que fica “aos cuidados” do filho de Aquiles; quanto ao jovem Astíanax, filho de Heitor, é lançado do alto das muralhas. Quanto ao rei Príamo, apesar da sua idade avançada ousa pegar em armas para defender o que é seu, mas a verdade é que acaba decapitado.




     Todo o processo é feito ao som de lamúrios, gritos de agonia e terror. Depois de tudo, reina então, o silêncio final em Tróia. O espólio retirado do palácio real é posto à disposição de Ulisses. Percorrendo as longas muralhas, vê-se uma longa, longa fila de mulheres e crianças, acorrentadas, sangrando, assustadas e em silêncio, pensando no horrível destino que as aguarda.
      Já nada mais resta de Tróia, a não ser ruínas fumegantes.




Confusão histórica?

     Se por um lado grande terror rodeia os poemas de Homero, o chamado “inventor de Tróia”, o que é facto é que nos séculos seguintes ninguém tinha bem a certeza se a narração de Homero teria ou não sido verídica. Nos finais da Antiguidade, a história passa a ser olhada como lenda e não tanto como narração verídica:

“Este famoso cavalo de madeira era certamente uma máquina de guerra capaz de arrasar muralhas; ou então somos obrigados a acreditar que os Troianos eram muito estúpidos, insensatos e sem sombra de juízo”
(Pausânias, geógrafo grego século II)




     Progressivamente, a descrição da aniquilação da cidade é tida como uma peça literária brilhante e admirável, mas completamente desprovida de sentido histórico. Assim foi até que, em finais do século XIX, o alemão Heinrich Schliemann, um admirador e apaixonado pela literatura grega, decide provar que toda a narração de Homero existiu verdadeiramente, que Tróia existiu e que conheceu todo aquele fim trágico. Na década de 1870, o especialista traz à luz do dia,  na colina de Hissarlik (actual Turquia), não uma, mas nove cidades soterradas e sobrepostas, sendo que a mais antiga remontava ao IV milénio. Uma destas cidades era bastante rica em ossadas e vestígios de incêndios, pelo que muitos arqueólogos acreditavam ter-se finalmente encontrado a perdida Tróia, sendo que a lenda teria bastante material credível e real.



Imagem alusiva ao transporte do corpo de Heitor



      Porém, a datação da(s) cidade(s) não permitiu quer afirmar, quer excluir que Tróia havia sido encontrada. Actualmente, atribuiu-se a Tróia homérica a uma das cidades encontradas, sendo designada por Tróia VII.

A arqueologia das "várias Tróias"

      O grande interesse arqueológico por Tróia, prende-se, obviamente, com o interesse suscitado pela obra de Homero. A existência das nove cidades foi comprovada por estudos entre 1932-1938 pelo americano Carl W. Blegen, académico da Universidade de Cincinnati. Nessas escavações, foram identificados 46 estratos construtivos agrupados em nove grupos.



- Tróia I: sendo o estracto mais antigo, ocupa um pequeno espaço fortificado com menos de 50 metros na parte mais larga, datada de 3 000 – 2 600 aC, na 1ª fase do Bronze Antigo.

- Tróia II, também de pequenas dimensões, é também ela fortificada, com cerca de 100 m de extensão máxima. Pensa-se que seria um castelo, simples, porém abastado. Terá sido destruída pelo fogo cerca de 2300 aC, tendo nela sido descoberto um tesouro contendo jóias e objectos preciosos que Schliemann, pensando tratar-se da Tróia homérica, denominou Tesouro de Príamo. De facto, o descobridor oferece à sua esposa um bom conjunto de jóias, pensando tratar-se das jóias de Tróia, mais precisamente das jóias de Helena. 

Fotografia de 1874, de Sophia Schliemann, utilizando as jóias encontradas no local de escavação

- Tróia III, IV e V terão sido pequenas cidades de importância local, entre 2300 e 1900 aC, perto do final da época do Bronze Antigo;


- Surge, então, Tróia VII-a, a verdadeira Tróia épica, alegadamente destruída pelos gregos cerca de 1200 AC.

- Tróia VIII é da época clássica da Grécia;



     E, por fim, Tróia IX que pertencerá ao período helenístico-romano. A partir do século IV dC, desaparecem completamente os vestígios históricos da cidade.

      Apesar de não existir grande consenso entre o que é lenda e o que é História, diversos arqueólogos têm, ao longo dos séculos, encontrado demasiadas coincidências entre a trágica história de Homero e as ruínas que vão encontrando, sempre na esperança de um dia observarem um qualquer nome gravado, quer seja Príamo, quer seja Páris, quer seja o de qualquer um herói daqueles tempos já imemoriais.


Fontes:
Astier et al., (2000), Memória do Mundo, Círculo de Leitores